16.11.09

A morte do suicídio (I)




O dia corria normalmente, e à noite, esperava-nos mais uma actividade espírita na associação onde colaborávamos. Seria mais uma conferência espírita, precedida de atendimento ao público, uma conversa em privado onde as pessoas podem falar com privacidade, sobre os seus assuntos, e onde ouvem a opinião da Doutrina Espírita, bem como recebem orientação acerca do assunto em pauta. Nada que se compare a uma consulta, apenas uma conversa de amigos.
Um homem, na casa dos 45 anos, estava ali pela primeira vez, demonstrando alguma inquietação. Notamos o seu ar nervoso e procuramos acalmá-lo, conversando afectuosamente. Mal se sentou, no atendimento em privado, disparou: “Sabe? Hoje vou suicidar-me. Só vim cá porque um amigo meu fez-me prometer que seria a última coisa que faria, vir ao centro espírita. Olhe que não acredito em nada disto”.
Tamanha espontaneidade fez-nos sentir imensa ternura por aquele ser humano, ali desnudado perante desconhecidos, abrindo a sua alma dorida pelas lutas da vida. Tinha 3 filhos, já se tinha encarregado de os deixar com familiares abastados, estava tudo escrito e previsto, conforme nos confidenciara. 
Questionado acerca da causa de tamanha decisão a resposta foi peremptória: “a vida para mim não faz mais sentido, a minha esposa trocou-me por outro, e fugiu para o estrangeiro. Moro num meio pequeno, já viu a minha vergonha? Não aguento isto…”
Pegando neste caso, semelhante a tantos outros pelo mundo fora, questionamo-nos: porque é que as pessoas se suicidam?
A resposta parece ser redundante: porque têm problemas na vida, e querem terminar com tudo de uma vez só.
Outra questão se coloca no horizonte: porque é que as pessoas pensam assim? Obviamente, porque pensam que após a morte do corpo de carne, tudo termina, dando assim crédito à doutrina materialista, que faz de nós meros seres celulares, em que a consciência é uma mera secreção do cérebro.

E se afinal, a vida continuar além da morte do corpo físico?

Podemos concluir que as pessoas se suicidam, porque têm problemas que julgam irresolúveis, mas também porque julgam que são meros seres celulares.
Outra questão se coloca: e se afinal a vida continuar além da morte do corpo físico?
Com as pesquisas espíritas, desde meados do século XIX, ficou demonstrado que a vida continua após a morte do corpo de carne, que o nosso corpo de carne é mera roupagem que o Espírito possui temporariamente, adentrando a espiritualidade após largá-lo pelo fenómeno natural da morte.
Fomos conversando com o nosso interlocutor, explicando-lhe o ponto de vista da Doutrina Espírita (ou Espiritismo) acerca da sua decisão de se suicidar, e das consequências que colheria após a morte do corpo de carne. Pedimos-lhe que protelasse a decisão de se suicidar por mais uma semana, tempo esse para ler «O Livro dos Espíritos» bem como “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, ambos de Allan Kardec.
Ele anuiu, referindo porém, que leria os livros, mas que não mudaria de ideias. Voltaria na 6ª feira seguinte para nos confirmar que se mataria no dia seguinte.
Na 6ª feira seguinte, ele voltou, conversou connosco, assistiu à conferência espírita e… voltou na 6ª seguinte, e muitas mais vezes, entendendo por outro prisma, o objectivo real da vida, vendo os problemas da vida como oportunidades de crescimento e não como derrotas pessoais.
Sinceramente, não sabemos qual a sua opinião acerca do espiritismo, se se tornou espírita ou não.
Basta-nos a grata satisfação de, vez por outra, vê-lo, com aquele sorriso tímido, entrar no centro espírita, sentar-se, participar na palestra pública semanal, e ir-se embora…

Bibliografia:

Kardec, Allan – “O Livro dos Espíritos”; “O Evangelho Segundo o Espiritismo”;
ADEP – www.adeportugal.org (Curso Básico de Espiritismo).

1 comentários:

Anónimo disse...

Extraordinário!
Quantos não poderiam ter evitado a fatalidade de terminar com as suas vidas se tivessem tido a coragem de contar a alguém que as suas pretensões.
É de enaltecer o carinho e cuidado tido com o caso!
Paula

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