1

O espírita na sociedade...


Qual o papel do espírita na sociedade? Aparentemente esta resposta é simples, mas, na prática afigura-se como análise incómoda para muitos e, até fruto de ideias muito diversas. Quem diria…


Quem é o espírita?
É o adepto da doutrina espírita (ou espiritismo), que é uma filosofia de vida, um conjunto de ideias, com bases experimentais e com consequências morais. Nada tem a ver com religiões, seitas, bruxarias, magias, crendices, etc.
Estudando a obra literária de Allan Kardec, vemos em “O Livro dos Espíritos”, na “Lei de Sociedade”, que vivemos na Terra, todos em conjunto, todos diferentes, com capacidades díspares, para que possamos evoluir, aprendendo uns com os outros e, treinando assim a cooperação fraterna entre todos, a caminho de um mundo melhor.
Existem espíritas que, acomodados dentro das 4 paredes do seu centro espírita, pouco ou quase nada fazem fora do mesmo.
Outros, pensam mesmo que o seu trabalho é de ajuda, oração, serviço ao próximo, mas, ali dentro do centro espírita, fora do bulício diário e das dificuldades sociais, numa espécie de retrocesso aos conventos de outrora.
Existem espíritas que pensam devermos ter um papel mais activo na sociedade, mas não nas áreas mais difíceis, mais polémicas. Essas, devemos deixar para os demais e, remetermo-nos à oração, deixar tudo nas mãos de Deus, que decerto resolverá os problemas sociais.
Ora, o espiritismo, como doutrina (conjunto de ideias) filosófica de consequências morais, que revela as leis que regem o intercâmbio entre o mundo espiritual e o mundo corpóreo, tem grande responsabilidade social.
Já imaginaram se, fruto da boa vontade de uns, da capacidade de comunicar de outros, do esforço de muitos, se conseguisse passar a ideia da imortalidade (baseada em factos), da reencarnação (baseada em factos) e, da Lei de Causa e Efeito (baseada em factos) à Humanidade?
E se esta os assimilasse?
Como o mundo mudaria rapidamente, no que concerne à parte moral…
Muitos espíritas empenham-se (e bem) em campanhas contra o aborto, a eutanásia, contra a pena de morte.
No entanto, ficam amorfos perante a corrupção social e política, ficam quietos perante situações sociais fracturantes, com receio, quiçá, de perderem adeptos ou para darem uma imagem de gente boazinha e caridosa, disfarçando assim a sua preguiça e pró-actividade social.
Este é o grande equívoco dos espíritas.
Kardec refere, e bem, que o mal se insinua, pela ausência dos bons.
O espírita, como ser social deve empenhar-se em todas as áreas da vida, sem limite de qualquer espécie, levando a todos os departamentos da sociedade a luz da doutrina espírita.

Perigosamente, vemos espíritas válidos, a demitirem-se das suas 
obrigações sociais, devido a uma abordagem doutrinária igrejeira, 
mística, amorfa, pseudo-espiritualizada, que nada 
tem a ver com a visão de Kardec.
  

Quem não desejaria que os governantes fossem espíritas honestos, os banqueiros também o fossem, o sistema financeiro, os empresários das multinacionais e por aí fora?
Certamente ficaríamos todos felizes.
No entanto, ficamos pachorrentamente, em casa ou no centro espírita, lendo, meditando, orando, e esperando que Deus faça aquilo que compete aos homens fazer: transformar a sociedade, transformando-se interiormente em primeiro lugar.
Freitas Nobre, no Brasil foi político reconhecido.
Bezerra de Menezes foi deputado (teve de fazer campanha eleitoral) e isso não o impediu de desempenhar o seu cargo com honradez.
Gandhi foi um revolucionário político, talvez o maior, depois de Jesus de Nazaré.
Talvez fosse útil reler os livros de José Herculano Pires (filósofo e escritor brasileiro, espírita), que foi, na opinião do médium Francisco Cândido Xavier, o metro que melhor mediu Kardec.
Para muitos espíritas, as actividades sociais são previamente seleccionadas, por uma espécie de novo “Vaticano”, que vai disseminando “directrizes”, em contra-ciclo com as exigências sociais, bem como os deveres naturais de qualquer cidadão e, mais ainda, de qualquer espírita.
Veja o que gosta de fazer, qual a sua tendência, e embrenhe-se bem na sociedade, levando à mesma a honestidade, autenticidade, tolerância e fraternidade que, são apanágio da filosofia e moral espíritas.
Como nos recorda o Evangelho, a fé sem obras de nada vale…

12

Incêndios florestais: uma visão espírita...


80% do pinhal de Leiria, mandado plantar pelo Rei
D. Afonso III (1248-1279), foi queimado
pelos incêndios de Outubro de 2017
O Espiritismo (ou Doutrina Espírita), não é mais uma religião nem uma seita. É ciência de observação, filosofia e moral. Demonstra experimentalmente, a imortalidade do Espírito, a reencarnação e a Lei de Causa e Efeito. Uma porta aberta para um futuro social, muito melhor…  

Portugal estertora, após uma das maiores catástrofes das últimas décadas: os incêndios florestais, que mataram mais de 100 pessoas em apenas dois episódios.
A quem interessa que existam estes incêndios?
A muita gente, a grupos organizados, cada um com os seus objectivos diferenciados, todos eles radicados no egoísmo, no lucro fácil e a qualquer custo, sem qualquer noção de sociedade e de humanismo.
As leis dos homens são frágeis, parecendo muitas vezes serem mal feitas, com lacunas, propositadamente, a fim de ilibar, à posteriori, os amigos de quem faz as referidas Leis.
Os governantes, os responsáveis institucionais, a banca, os partidos políticos, perderam a noção do colectivo, da sua verdadeira essência, que é estar ao serviço de um povo, de uma nação, fortalecendo um Estado.
Os objectivos pessoais e de grupo, sobrepõem-se aos objectivos nacionais, olha-se para o futuro a curto prazo, procura-se o maior lucro no mínimo espaço de tempo, dilapida-se tudo e todos, numa destruição interior e social tão voraz como a dos incêndios que assolaram Portugal.
Allan Kardec, o compilador da Doutrina Espírita, em meados do século XIX, na sequência das inúmeras comunicações espíritas, um pouco por todo o mundo, lança os alicerces de um mundo novo, com o lançamento da monumental obra “O Livro dos Espíritos”, em 18 de Abril de 1857.
Aqui, ele questiona mais de mil vezes a espiritualidade superior e, esta responde com uma assertividade que se mantém actual, 160 anos depois.

À questão 791, “Apurar-se-á algum dia a civilização, de modo a fazer que desapareçam os males que haja produzido?” os Espíritos respondem: 
Sim, quando o moral estiver tão desenvolvido quanto a inteligência. O fruto não pode surgir antes da flor.”

Na pergunta 793, “Por que indícios se pode reconhecer uma civilização completa?” a resposta é certeira:
Reconhecê-la-eis pelo desenvolvimento moral… Até então, sereis apenas povos esclarecidos, que hão percorrido a primeira fase da civilização.”

No item 799, questiona: “De que maneira pode o Espiritismo contribuir para o progresso?”
A resposta obejctiva vem: “Destruindo o materialismo, que é uma das chagas da sociedade, ele faz com que os homens compreendam onde se encontram os seus verdadeiros interesses. Deixando a vida futura de estar velada pela dúvida, o homem perceberá melhor que, por meio do presente, lhe é dado preparar o seu futuro. Abolindo os prejuízos de seitas, castas e cores, ensina aos homens a grande solidariedade que os há de unir como irmãos.”

Se eles soubessem que são imortais, que a reencarnação existe, que colherão os frutos amargos dos seus actos, não ateariam os fogos.
Urge divulgar a espiritualidade e a imortalidade…

Identificadas as causas, que radicam no desconhecimento do ser humano como ser espiritual, somente com o desenvolvimento e evolução moral do Homem, a sociedade se humaniza, se fortalece na solidariedade, no trabalho, na fraternidade.
Não adianta dizer “não acredito” na imortalidade, na reencarnação, na Lei de Causalidade.
Quer queiramos quer não, a Lei Natural é irrevogável, por ser divina e, relembrando Galileu Galilei, “no entanto… somos imortais, reencarnaremos e, colheremos o fruto do que houvermos semeado no nosso íntimo, ao longo do tempo”.

Os que partiram como vítimas da incúria humana, resgataram aflições trazidas de outras reencarnações, adentrando-se agora felizes, no mundo espiritual, libertos dos problemas de consciência de outrora.
Os outros, os algozes, os responsáveis directos e / ou indirectos, terão de reparar os lamentáveis crimes, seja nesta vida, no mundo espiritual ou em dolorosas expiações, em reencarnação futura.
Recordando Jesus de Nazaré, “a cada um de acordo com as suas obras.”
Tenhamos, pois, a coragem de prosseguir servindo e amando, sem nos deixarmos enlear nos engodos imediatistas e torturantes que a sociedade actual nos oferece.
“Nascer, morrer, renascer ainda, progredir sem cessar, tal é a Lei”.


17 de Outubro de 2017