27.8.15

Espiritismo ou "espiritismos" ?


"O Espiritismo é a ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como das suas relações com o mundo corporal", refere Allan Kardec no livro "O que é o Espiritismo".
Sendo uma ciência filosófica de consequências morais, como ciência de observação investiga os chamados factos espíritas, como filosofia explica esses mesmos factos, e como moral apresenta um roteiro para a Humanidade, de modo a que esta se espiritualize mais depressa.
Sendo a Doutrina dos Espíritos (ditada por eles) e estando assente em valores universais, bem como nas leis imutáveis da Vida, jamais poderia a Doutrina dos Espíritos ser mais um joguete dos seres humanos, que a utilizassem a seu belo prazer.
Allan Kardec, estruturou muito bem os ensinamentos dos Espíritos, compilando-os na sua obra, que engloba os 12 volumes da "Revista Espírita" e 8 livros (considerando-se o livro "Obras Póstumas" e "Viagem Espírita em 1862"), deixando bem vincado o carácter universalista e universal da Doutrina dos Espíritos.
Léon Denis, o filósofo do Espiritismo, referia a seu tempo, que o Espiritismo seria aquilo que os Espíritas dele fizessem.
A obra de Kardec permanece segura, bem estruturada, e ainda não é bem entendida pela grande maioria de nós, o que é natural tendo em conta que é algo muito recente, apenas com 158 anos de idade.
Os espíritas (adeptos da ideia espírita) entendem a Doutrina dos Espíritos de acordo com a sua capacidade de entendimento, que varia em grau e em profundidade, o que é perfeitamente normal, saudável, desde que haja bom senso, discernimento, lucidez, equilíbrio e uma normal troca de ideias, dentro da assertiva espírita da fraternidade, da caridade, do Amor entre todos.
Pelo processo da reencarnação, muitos de nós, espíritas, somos ex-padres e ex-freiras, oriundos do catolicismo dominante no Ocidente, desde sempre. Ainda presos aos atavismos do passado, vamos levando para os centros espíritas muitas coisas que nada têm a ver com a essência universal do Espiritismo, como toalhas brancas para a mesa (saudades dos altares?), fotografias de Jesus e de vultos espíritas (saudades dos santos das Igrejas?), rezas em coro e cânticos igrejeiros (reminiscências do catolicismo?), o "Amen" no fim de uma prece, posturas igrejeiras e castradoras por parte de dirigentes espíritas (saudades do clero?) (tudo isto criticado por Kardec, in "Viagem Espírita em 1862", cap. XI e seguinte).
Paralelamente, ao nível da divulgação espírita, em termos locais, regionais, nacionais e internacionais, vamos perdendo a essência do espiritismo, o estatuto de livre-pensador, para começarmos a criar organizações, grupos, por vezes sectários, dentro dos movimentos espíritas, feitos pelos homens, que muitas vezes vão contra a essência da Doutrina dos Espíritos (que não é sectária).
É fundamental que as organizações de divulgação espírita, seja a que nível for, as Federações Espíritas em todos os países, não se tornem uma reedição dos Bispados de outrora, assim como é importante que o Conselho Espírita Internacional (CEI) não seja entendido como um papado espírita.
No entanto, todas estas organizações são muito úteis e necessárias no processo de divulgação do espiritismo, mantendo-se uma estrutura horizontal, em rede, sem necessidade da tradicional estrutura piramidal, papal.

O espiritismo é uma ideia fabulosa.
Os espíritas são os seus bons ou maus intérpretes,
que não podem ser confundidos com a ideia espírita.

O ser humano, espírita, habituado a ser "orientado" pelos padres de outrora, sente-se perdido, sem saber o que fazer ou como fazer, agora que usufrui do estatuto de livre-pensador. Então, num movimento de “retrocesso” evolutivo temporário, o espírita refugia-se em organizações que reeditam vícios e erros do passado, criando-se regras rígidas, outras absurdas, supostas hierarquias, fazendo-se com o Espiritismo o mesmo que os Homens fizeram com o Cristianismo, descaracterizando-o e catolicizando-o.
Os centros espíritas pequenos, como preconizava Kardec, um em cada bairro, com 20, 30 pessoas, vão dando origem a "igrejas" com 400, 800, 1000 ou mais pessoas, descaracterizando a essência do centro espírita, que aponta no conhecimento mútuo, no amparo entre todos, na entreajuda e companheirismo (in "O Livro dos Médiuns", cap. XXIX, "Reuniões e Sociedades").
Saudosos dos grupos divergentes dentro do catolicismo, em vidas passadas, divergências essas que deram origem às várias ordens religiosas e aos vários grupos dentro do Catolicismo, os espíritas menos atentos agrupam-se em torno dos seus "santos" espíritas, criando "grupos de amigos" deste ou daquele espírita mais proeminente, num claro desacerto com o rumo da Doutrina dos Espíritos, compilada por Allan Kardec.
Não existem espiritismos, nem existem correntes espíritas.
"Espiritismo só há um, o de Kardec e mais nenhum" costuma referir pessoa amiga, em jeito de brincadeira, mas falando a sério.
Espiritismo é uma coisa.
Os espíritas podem ser outra bem diferente...

Em caso de dúvida, peguemos nos livros de Allan Kardec, estudemo-los, usemos o nosso espírito crítico, com Amor, fraternidade, e prossigamos vivendo, amando, servindo, na certeza de que no actual estado evolutivo, jamais conseguiremos agradar a gregos e troianos.

3 comentários:

jose ribeiro disse...

Eu sou ex-frade capuchinho conventual, formado em teologia por um Seminário Baptista, e fui membro de igrejas Baptistas por 31 anos...até que, um dia, durante três anos vivi numa espécia de sabatismo( separação de tudo e de todos) para saber como "resolver " minha caminhada esperitual, recolhia-me a um bosque todos os dias, por algum tempo, até que, numa noite escura e fria, sózinho no local tarde da noite, uma voz interior me disse " porque não vais a uma Casa Espírita???". Fiquei surpreendido, mas procurei e encontrei o Núcleo Espirita Cristão, no Porto, e durante um ano lá estive fielmente, como obervador.Comprei toda a Codificação e comecei a " devorar" os eus ensinos, horas a fio e depois integrei-me No Centro Espirita das Casas Francisco Xavier - Alexandre, Júlia e Casimiro, e sou trabalhador vai para 8 anos.Contudo, devido a um compromisso de honra assumido perante Jesus e Francisco de Assis, continuo a usar a túnica franciscana (modificada para curto), por tempo perpéctuo, mas só na vida pública(não nas Casas Espiritas evidentemente).. Fui colega de Ordem de Frei Pio de Pietrelcina até 1969(ele desencarnou em 1968), Sou assistente espiritual de muita gente, via telefone, e mantenho sistema de estudos particulares de obras espiritas, via net com Dr. Haroldo Dutra Dias, audições de Divaldo Pereira Franco e outros para manter a firmeza e conhecimento do Espiritismo, que amo muito n qual e com o qual, terminarei minha vida na Terra.Tenho 71 anos, faço passeios públicos para "evangelizar", sem pregar (rsrsr), mas há sempre alguém que se abeira de mim, para uma oração ou pedido de explicação.Meu irmão.É um testemuno curto, é o meu por agora. Gosto muito de me isolar para a oração e tenho o privilégio de dois bosques mesmo a jeito próximo de minha casa. É duro, contudo, ser na família único espiritual, mas Jesus também era,Francisco de Assis idem e outros também.Cada um tem seu percurso. Eu estou à espera da minha "viagem" naquela emoção de visitar a Pátria de Todos!. Um abraço com muita Paz e todo o Bem no coração. Irmão José de Matosinhos.

Anónimo disse...

<"igrejas" com 400, 800, 1000 ou mais pessoas>
Onde? Na pátria do evangelho?

Consciencialização Espírita disse...

Artigo bastante produtivo. E a respeito das casas espiritas voltadas para o espetáculo em torno de santificações seja de médiuns ou mesmo de espíritos que se comunicam, infelizmente estas se expandem com um incrível séquito de seguidores iludidos pelo fenômeno mediúnico deturpando os princípios, levando a que a Doutrina seja ridicularizada. Infelizmente, muitas pessoas de boa fé, que poderiam ser trabalhadores atuantes e produtivos, se afastam do Espiritismo, colocando na Doutrina a culpa pelo mal comportamento de certo dirigentes e trabalhadores de núcleos que se dizem espíritas.

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