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Vale a pena viver...


Vivemos tempos difíceis, ouve-se um pouco por todo o lado.
Vivemos uma crise financeira mundial, onde as economias vacilam ao sabor do egoísmo humano que tudo quer para si sem cogitar do bem-estar alheio.
Falta trabalho, falta pão, falta paz, falta solidariedade, falta bom senso, falta amizade, falta solidariedade, falta, falta...
O espectro social parece negro, irremediável, situação esta derivada também da capacidade manipuladora dos órgãos de comunicação social que apenas destacam o mal, o erro, o crime, raramente dando espaço aos aspectos mais positivos, que por não serem escandalosos deixam de ser notícia, nos seus conceitos primitivos de "notícia", neste mundo ainda essencialmente materialista.
Os mais distraídos deixam-se levar na onda do pessimismo, sintonizam com essas ondas mentais destrutivas, inquietantes, paralisantes, que conduzem à revolta, ao ódio, à inquietação, à morte, muitas vezes ao suicídio .
O homem, perdida a noção de Deus, nesta sociedade materialista que nos consome, onde valorizamos mais o ter do que o ser pessoa, estertora, agonizando lentamente os mais nobres ideais, deixando-se corromper, partindo para excessos de toda a ordem, e acabando finalmente por se sentir insatisfeito, não realizado, frustrado, enrolando-se em última instância nos liames do suicídio.
No passado mês de Julho de 2011, encontrei pessoa conhecida que não via há anos. Pessoa culta, conhecedora de múltiplos afazeres, já foi muito rica num país estrangeiro, tendo regressado a Portugal e tendo aos poucos perdido toda a sua riqueza, ao ponto de agora sobreviver com 300 € pagando 200 € por um quarto. Todos os dias vai comer à Misericórdia local.
Sensibilizei-me com a sua situação, procurando vê-la como normal, mas o que mais me desconcertou foi a serenidade dessa pessoa, que com um olhar lúcido e penetrante me dizia: «Sabes, já tentei o suicídio uma vez. Felizmente não o consegui. Somente agora conhecendo a Doutrina Espírita vejo o enorme disparate que ia cometer, pois agora sei que a vida continua. Sabes, apesar de viver com muito pouco, hoje sou feliz, tenho um quarto, tenho comida, tenho apoio social, que mais quero?».

O espiritismo é o melhor preservativo contra o suicídio
pois explica ao homem o porquê das suas dores e alegrias,
a dissemelhança de oportunidades, quem somos,
de onde viemos e para onde vamos.

Confesso que engoli em seco, eu que estou habituado a reclamar de injustiças que julgo serem grandes ou de situações com as quais não concordo.
Acabara de receber a maior e mais nobre lição de simplicidade, de humildade lúcida de que me lembro na minha vida.
Ainda hoje a estou a mastigar lentamente, para que ela fique bem presente em mim, para que aprenda que a Vida é muito mais do que ter casas, carros, dinheiro no banco, ter coisas. Viver bem, afinal, ensinou-me aquele conhecido que não via há muito, viver bem, é afinal... um estado de alma, de alguém que está de bem com a vida, procurando lutar, estar sempre melhor, mas sem se embrenhar nos campos lodosos da revolta, da passividade.
Comecei a relembrar os conceitos vertidos em "O Livro dos Espíritos", "O Evangelho Segundo o Espiritismo", "A Génese", "O Céu e o Inferno" e "O Livro dos Médiuns", todos eles de Allan Kardec, e que formam a base da Doutrina Espírita (que não é mais uma seita nem mais uma religião, mas sim uma doutrina de tríplice aspecto: ciência, filosofia, moral).
Ah, quando todos souberem que afinal a vida é apenas uma, a desdobrar-se em infinitas oportunidades existenciais, neste e noutros planetas, bem como em diversos planos existenciais no mundo espiritual, as pessoas jamais se suicidarão por terem problemas, pois saberão que a morte do corpo de carne será apenas uma mudança brusca de "casa", com consequências terríveis para quem o faz, muitas vezes a repercutirem-se em vidas posteriores.
O estudo da doutrina espírita (poderá fazê-lo gratuitamente em qualquer centro espírita idóneo ou em www.adeportugal.org) é o melhor preservativo contra o suicídio, pois explica ao homem o porquê das suas dores e alegrias, a dissemelhança de oportunidades, quem somos, de onde viemos e para onde vamos.
Com o espiritismo aprendi que vale a pena viver, custe o que custar, mas mais aprendi com a força notável do meu conhecido, que desceu do "muito rico" ao "paupérrimo", e que graças ao conhecimento espírita mantém uma serenidade e um bem-estar contagiantes, baseados na fé raciocinada que move montanhas... 

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Carol Bowman: a reencarnação é real...


O Jornal de Espiritismo encontrou Carol Bowman no 6º Congresso Espírita Mundial, em Valência, Espanha, em 2010. Não é espírita. è uma pesquisadora de crianças e adultos em torno da reencarnação. A sua abertura de espírito fê-la aceitar o convite de partilhar as suas pesquisas num congresso espírita.

Jornal de Espiritismo: Costumamos estranhar o facto dos americanos acreditarem na reencarnação, pois temos a ideia de serem muito optimistas e de não terem crenças, que são mais virados para a matéria e, possivelmente, é uma ideia errada.
Carol Bowman: É uma ideia errada. São como em qualquer outro lugar no mundo, uns são inclinados para a espiritualidade e outros são muito materialistas e que não acreditam em nada para além da matéria. Mas pela minha experiência, enquanto crescia nos Estados Unidos e principalmente tendo sido estudante nos anos 60, havia uma grande revolução espiritual entre nós na faixa etária daquele grupo onde estava inserida. Procurávamos e buscávamos a religião eastern e espiritualidade. Há milhões de pessoas nos Estados Unidos que são muito devotas ao caminho espiritual.

JDE: Ian Stevenson é uma referência para todo o mundo, mas Carol Bowman é muito conhecida em Portugal pelos livros que podemos encontrar em todo o lado…
CB: Interessante, não sabia.

JDE: Mas sabemos que pesquisou e escreveu devido ao facto dos seus filhos…
CB: Sim, se tiver lido o meu primeiro livro refiro que ambos os meus filhos tiveram memórias de vidas passadas, ainda não tive tempo de falar das memórias da minha filha.

JDE: Era católica, qual é a sua religião?
CB: Judia.

JDE: E foi-lhe muito difícil de compatibilizar a religião com a reencarnação?
CB: Não, de todo.

JDE: Mas os judeus não acreditam na reencarnação.
CB: Alguns acreditam, porque está na Cabala. Na realidade o meu avô era cabalista, embora ele nunca se referisse à tradição cabalística, que remonta ao século XII, pelo menos, quando começaram a escrever acerca dos ensinamentos místicos em Espanha e acreditavam na reencarnação.

JDE: Então decidiu pesquisar e agora acredita com base em factos reais, e não numa crença cega.
CB: Sim, acho que foi quando eu era estudante, há muitos anos, passei a acreditar na continuação de uma consciência após a morte. Sabia que a reencarnação era real mas foi quando tive um episódio de regressão a uma vida passada, quando estive doente, que ficou mais real. Compreendi. E tem resultados práticos no processo de cura interior. Então, um ano antes dos meus filhos terem tido as suas memórias já eu tinha feito uma regressão a uma vida passada e fui curada, pelo que entendi até que ponto a reencarnação é um facto. Então, foi principalmente quando o meu filho teve a sua memória e a cura que pude verificar o potencial e observar as suas implicações reais.

JDE: A Carol é judia, acredita na reencarnação, pesquisa e tem vários factos comprovativos. Acredito que nos Estados Unidos, mas julgo que um pouco por esse mundo fora, de uma maneira geral, as pessoas não sabem o que é o Espiritismo, por o confundirem com superstições, entre outros. No entanto, Espiritismo é muito mais do que mera superstição. Então, não receia que a conotem como bruxa ou com má índole, uma vez que se encontra num congresso espírita?
CB: Não, de todo! Não há nada a recear, tenho imensa curiosidade até porque sei da existência de outras dimensões da realidade onde se encontram os espíritos, as energias. Por ter estudado a reencarnação, sei que quando morremos existe uma consciência, uma energia que continua, e que inclusivamente mantém as suas memórias, pois quando reencarnamos trazemos connosco essas mesmas memórias. Há continuidade. Parece-me assim ser muito estimulante e não assustador.
JDE: Já leu alguns livros de Allan Kardec?
CB: Li "O Livro dos Espíritos"  já há muito tempo.

JDE: E qual a sua opinião? Achou um livro estranho, com uma filosofia estranha?...
CB: Bem, achei muito século dezanove em algumas coisas… conheço muitos médiuns nos Estados Unidos, alguns mesmo muito bons, e acho que o seu entendimento é envolvente e modificador, não é que seja desactualizado, mas pessoalmente tenho um entendimento mais simplista da vida após a morte.

JDE: Alguns espíritas e muitas pessoas pensam que o Espiritismo é mais uma religião, mas não é. Tem uma vertente filosófica e moral. Eu estava curioso por ser a primeira vez que conheço alguém não espírita num congresso e gostava de saber como se sente em relação às pessoas e ao ambiente?
CB: Adoro as pessoas! (risos) São espectaculares. No ano passado palestrei num congresso espírita em Boston. Conheci lá a Vanessa e ela convidou-me a vir a este congresso. Perguntou-me se o meu livro tinha sido traduzido para espanhol, mas nem por isso. Foi traduzido para dezasseis línguas a nenhuma foi o espanhol. Então ela tratou disso. Sinto-me como se estivesse em casa, não me parece minimamente estranho.

JDE: É uma pessoal muito simples.
CB: Nalgumas coisas sim, mas noutras sou muito complexa.

JDE: A Carol é casada, tem dois filhos…
CB: Sou casada há 37 anos com a mesma pessoa…(risos)

JDE: E o que pensa o seu marido sobre isto?
CB: Bem, ele viu as provas, as evidências.

JDE: Ele acha que a esposa é doida ou acompanha-a e dá-lhe apoio?
CB: Apoia-me, até porque presenciou com os nossos filhos, vivenciou os factos e ele sempre teve a crença da existência de algo para além da matéria e no entanto é uma pessoa ponderada, um homem de negócios.

JDE: Sinto que é uma pessoa muito bondosa e simples. Uma última pergunta, o que sente que deveria fazer em termos futuros no mundo, no que diz respeito ao seu trabalho?
CB: Como já disse, para mim é muito difícil esperar, e eu não canalizo isto assim, em primeiro lugar tenho que organizar ideias e meditar verdadeiramente no que vejo. É provável que venha aí mais um livro a caminho, o que dizer que quando escrevo é mesmo isso que faço. Tenho que me isolar, ir ao computador diariamente e é tudo o que consigo fazer. Por isso não o faço de ânimo leve, quando escrevo é com toda a seriedade e um compromisso de, pelo menos, uns dois anos. É provável que haja mais um livro a caminho, sobre como nos afectam as memórias de vidas passadas, desde o nascimento à fase adulta, e tratará das memórias de crianças nos padrões que aparecem na meninice resultantes provavelmente de vidas anteriores e que nos vão afectando sistematicamente até à fase adulta. Utilizarei alguns exemplos da terapia regressiva que faço a adultos.

JDE: Pois, faz terapia de regressão a adultos. E continuará a pesquisar?...
CB: Sim, seguramente. É isso que eu faço. É como diz o meu marido, ninguém me iria contratar, sou “não contratável” pois não consigo ter qualquer outro emprego que não este. (risos)

JDE: Podemos falar de outros como Edith Fiore, Ian Stevenson…
CB: Bem, eu faço algo diferente, penso que alcanço uma audiência diferente, um grupo muito sofisticado, pois os espíritas são muito educados, estudam o espiritismo, a reencarnação.

JDE: Mas somos pessoas simples.
CB: Sim, em algumas coisas, mas são sofisticados e compreendem estes assuntos.
Sinto que nasci nos Estados Unidos provavelmente por apresentar este conteúdo enquanto mãe a quem aconteceu tal situação e com quem as pessoas se podem identificar, e não como sendo uma filosofia de vida, mas sim algo observável. Se os nossos filhos nos dizem isto, então é porque estão a ter memórias, memórias de vidas passadas.

JDE: Todas as crianças têm sonhos e recordações de vidas passadas?
CB: Sim. Então eu acho que estando nos Estados Unidos consigo chegar a muitas pessoas pois é internacional. Se uma pessoa ou criança que esteja a passar por este fenómeno aceder a esta informação, através da internet, poderá identificar o que se passa com ela e obter ajuda, a confirmação de que não há nada de mal com ela, são memórias de vidas passadas. É isso que se faz, conversar e compreender que é real, perceber que é uma experiência verdadeira. É muito simples.  

(Entrevista a Carol Bowman, concedida a José Lucas, no 6º Congresso Espírita Mundial, em Valência, Espanha, 2010)

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Espiritismo: remédio para a violência...



O retrato social parece estar mais violento que nunca. Desde a violência infantil nos lares, a violência doméstica sobre mulheres, violência nas escolas, gangs, assaltos, violência entre países, violência social generalizada, terrorismo, enfim, tudo parece apontar para estarmos a viver num autêntico barril de pólvora, numa espécie de guerra não declarada, sempre à espera do primeiro estilhaço.
Todos são unânimes que este cenário não pode continuar, todos nos sentimos inseguros, os "media" destacam apenas o mal, na ânsia do dinheiro fácil, sanguinolento, rematando para o lixo notícias que apontem no sentido do bem, no sentido da paz.
Mudemos de cenário!
Domingo à tarde, Caldas da Rainha, Portugal. Tinha-me deslocado com a esposa e os 2 filhotes pequenos a uma superfície comercial. Ao sair, com pouco carros no parque de estacionamento, circulava a uns 20 kms/h, ainda a arrumar um papel ou outro. Uma buzinadela sonora, na rectaguarda, lembrou-me que alguém tinha mais pressa. Encostei-me à direita. O condutor apressado, ao passar pela nossa viatura, ainda soltou um sonoro (sai daí óh lesma), ele também na presença da esposa e de duas crianças. Mas o que mais me fez reflectir não foi a atitude mal educada, o mau exemplo que deu aos seus filhos, mas sim o olhar do condutor, colérico, parecendo deitar chamas de ódio.
Fiquei estupefacto!
Num fim de tarde de um domingo, na presença de crianças, qual seria a causa daquela atitude intempestiva, seguida daquele olhar "mortal"?
Decerto, aquele condutor quando chegasse a casa e ligasse a TV seria o primeiro a insurgir-se contra a violência no mundo, contra a corrupção, contra o roubo, enfim contra os males sociais.
De imediato centrei-me em mim próprio, desligando-me do tal "olhar mortífero", e fiquei a meditar como sou imensamente feliz por ser espírita. Não que eu seja melhor que o outro condutor, (ele até podia estar num "dia mau", a que todos têm direito), mas porque o conhecimento da doutrina espírita dá-nos outra visão da vida, menos imediatista, mais global, o que se repercute inevitavelmente, pela positiva, na nossa maneira de viver no dia-a-dia.

O espírita avança no sentido da pacificação interior, da alteração
de atitudes no seu quotidiano, pacificando os que o rodeiam,
 num contágio incessante que abraça todo o planeta.

Fiquei a pensar como seria bom que as pessoas conhecessem a ideia espírita (ciência, filosofia e moral), que não é mais uma seita nem mais uma religião, que soubessem, sentissem a certeza de que somos seres imortais, temporariamente num corpo de carne. Como seria bom que soubessem que a vida continua após a morte do corpo físico, como quem muda de casa, que é possível a comunicabilidade com aqueles que já nos precederam na grande viagem, que conhecessem o mecanismo da reencarnação, única explicação plausível para as dissemelhanças sociais, dissemelhanças de oportunidades de alegrias, de dores. Como seria bom que se embrenhassem na essência da doutrina espírita, assente na moral de Jesus de Nazaré (fazer ao próximo o que desejamos para nós próprios).
Fiquei a pensar numa pessoa que há dias me dizia: "vocês espíritas são diferentes", ao que eu rematei - "mas nem sempre somos melhores, mas esforçamo-nos para isso".
O conhecimento da doutrina espírita (começando pelo "O Livro dos Espíritos", "O Evangelho Segundo o Espiritismo" e outros livros, todos de Allan Kardec) leva o homem a tornar-se mais fraterno, a ter vontade de servir, de ser útil, desinteressadamente. Ao sentir essa mudança íntima, avança no sentido da pacificação interior, da alteração de atitudes no seu quotidiano, e pacificando-se, pacifica os que o rodeiam, com as suas atitudes, num contágio incessante que abraça todo o planeta.
Fiquei a pensar como seria bom que todo o planeta tivesse acesso a este tesouro espiritual (a doutrina espírita), e da enorme responsabilidade do espíritas em divulgá-lo o mais e melhor possível, não no afã de arrebanhar adeptos, mas sim no sentido de contribuir para a pacificação das consciências, dos países e do mundo.
Ou não fosse o poderoso deserto composto de minúsculos e "desprezíveis" grãos de areia...

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Bin Laden está vivo...

O telemóvel tocou. Mais um SMS. Pachorrentamente, num gesto mecânico, lá fui ver a mensagem. Ao ler, não pude deixar de sentir um espanto pelo inesperado da notícia: “Mataram o Bin Laden, finalmente”.
O texto era de alegria e de alívio! Puxando dos conhecimentos que a Doutrina Espírita me deu, fiquei a pensar com os meus botões: será que o mataram mesmo?
Não é nosso propósito fazer algum tipo de análise acerca do ataque às torres gémeas nos EUA, aos 10 anos de guerra no Afeganistão, à captura e morte do líder da Al-Qaeda, nem opinar acerca da justiça ou não justiça de tais actos.
Bin Laden atacou os EUA em 2001, utilizando aviões comerciais, matando cerca de 3 mil pessoas.
Os EUA ripostaram, juntamente com os seus aliados, contabilizando nestes últimos 10 anos de guerra, vários milhares de mortos e feridos entre militares e civis.
Fez-se justiça”, ouve-se um pouco por todo o mundo quando se fala da morte de Bin Laden. “Resolveu-se um problema maior”, dizem uns, enquanto outros já antevêem o princípio do fim do terrorismo da Al-Qaeda.
Ora, tal seria verdade se a vida terminasse com a morte do corpo de carne, mas, desde que Allan Kardec (o pesquisador que deu origem à doutrina espírita ou espiritismo) em meados do século XIX, comprovou a imortalidade da alma, tão apregoada pelas religiões tradicionais (factos estes corroborados por inúmeras pesquisas até aos dias de hoje por outros tantos cientistas), que teremos de reger a vida por esse novo paradigma: somos seres imortais, temporariamente num corpo de carne, onde temos uma oportunidade evolutiva durante certo tempo, até que regressemos de novo ao mundo dos espíritos, voltando mais tarde ao planeta Terra (reencarnação), e assim sucessivamente, até que um dia sejamos espíritos puros e não mais necessitemos de reencarnar neste ou em outros planetas.


Demonstrada a imortalidade do Espírito,
a guerra, a morte, a pena de morte deixam
de fazer sentido, na visão holística da Vida.


Temos assim, dois tipos de justiça: a dos homens e a de Deus.
Bin Laden foi morto pelos homens, mas, sendo espírito imortal, como todos nós, continua vivo no mundo espiritual, onde, se lhe for permitido, dentro das leis espirituais de causa e efeito, poderá ainda continuar nas suas actividades, interferindo e influenciando na Terra aqueles que sintonizam com o tipo de pensamentos que ele tinha aquando dentro do corpo de carne.
Bin Laden, ser humano, eterno como todos nós, é pois mais digno de pena do que qualquer outro sentimento que possamos nutrir, imaginando os séculos de resgate que terá pela frente até que a sua consciência se sinta ilibada de todos os crimes cometidos. Quantas reencarnações dolorosas terá de enfrentar? Quantas doenças, limitações, dificuldades, sofrimentos, terá de encarar dentro da lei de causa e efeito que rege todo o Universo?

É caso para acuradas meditações, o facto de nunca poderemos iludir a nossa consciência nem escudarmo-nos em falsos conceitos de poder, no mundo espiritual, onde cada um se desnudará de acordo com as atitudes tomadas neste mundo terreno.
Os que tiveram vida digna e honesta estarão num ambiente vibratório de tranquilidade, compatível com o seu estado de alma, calmo e sereno, e aqueles que viveram prejudicando o próximo, herdarão de si próprios a intranquilidade, intrínseca às pessoas que não estão em paz consigo próprias, fruto dos desatinos cometidos na Terra.
Assim sendo, Bin Laden não morreu, mas, isso sim, mudou de plano existencial, forçado pelas circunstâncias, continuando a viver no mais além, desconhecendo nós quantas dezenas ou até centenas de anos demorará o julgamento dentro de si próprio, colhendo o sofrimento gerado nos seres torturados e mortos.
«A cada um de acordo com as suas obras», já nos advertira Jesus de Nazaré, deixando-nos uma ética e uma moral que são o único caminho para a nossa felicidade.
Que possamos todos nós, tirar profundas ilações deste ser, que mais do que ser odiado, é digno de compaixão, na certeza de que sendo imortais, o nosso amanhã será tão mais radioso e feliz quanto melhores forem as nossas atitudes de agora.
É, pois, tempo de semeadura… no bem!
 
Bibliografia:
Kardec, Allan – “O Livro dos Espíritos”

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O Maluco...



Mais um dia de trabalho. Após os cumprimentos da praxe, cada um ia relatando, como de costume, algo mais inusitado que tivesse acontecido  recentemente.
Um colega, que vem todos os dias de longe, utilizando vários meios de transporte, vinha alegre, sorridente, passando a explicar: "Oh pá, hoje no autocarro vinha um cromo do caraças; o gajo entrou no autocarro a falar alto e imagina... cumprimentou todas as pessoas do autocarro, uma a uma e depois foi um fartote de rir com as anedotas dele... Há cada cromo neste mundo...!!!".
Depois de ter repetido algumas anedotas, alegres e sem malícia, fiquei a pensar com os meus botões: "então fulano é maluco, é conhecido pelo maluco, mas... quando o "maluco" não aparece, os "normais" vão de cara cerrada, cada um com os seus auscultadores na cabeça, cada um no seu mundo, ninguém se fala, chegam ao trabalho cansados... e o outro, o tal que cumprimenta toda a gente, o tal que distribui alegria e bem-estar, o tal que faz com que as pessoas cheguem sorridentes ao trabalho, esse é que é "maluco"?"
Na minha simples lógica algo não batia muito bem...
Afinal quem são os "malucos" e os "normais"?
Dir-me-ão que não é "normal" um adulto entrar num autocarro pejado de gente e começar a distribuir cumprimentos e alegria a toda a gente... e eu pergunto: porquê?
Dir-me-ão que se ainda fosse uma criança, as pessoas achavam graça, agora um adulto... parece mal... e eu pergunto: porquê?
Dir-me-ão que a sociedade tem regras, tem expectativas, que não é expectável um adulto comportar-se assim... e eu pergunto: porquê?
Dir-me-ão que o "normal" é sermos recatados e não falarmos por dá cá aquela palha com gente desconhecida... e eu pergunto: porquê?
Em "O Livro dos Espíritos", de Allan Kardec, podemos encontrar  na 3ª parte, as "Leis Morais", sendo que uma delas é a "Lei de Sociedade", que aborda dentro da óptica espírita a necessidade da vida social, fala sobre a vida de isolamento, sobre o voto de silêncio e os laços de família. Se adentrarmos pelas restantes Leis Morais, verificamos que um dos objectivos da nossa vida em sociedade é precisamente a nossa interacção, a aprendizagem e auxílio mútuo, no sentido da evolução intelectual e moral do ser humano, como espírito eterno que é ao longo das suas múltiplas reencarnações (vidas sucessivas).
No meio da nossa sociedade, egoísta, triste, ansiosa, queixosa, a Doutrina Espírita (ou Espiritismo) mostra-nos que a vida é bela, que é um conjunto de oportunidades que temos para sermos mais felizes, passo a passo, vida após vida, e que vivemos uma vida de relação precisamente para que possamos evoluir, aprender uns com os outros, apoiarmo-nos mutuamente, fraternalmente, procurando contribuir para uma sociedade mais feliz, mais justa, mais pacífica.
Nesse ínterim, fico cá a pensar com os meus botões quem será o "maluco" e quem serão os "normais", no caso em pauta.
Por mim, preferia partilhar todos os dias a presença do "maluco" do que partilhar um autocarro cheio de gente triste, com "headphones" na cabeça, onde cada um finge que os outros seres humanos que o rodeiam não existem ou não têm nada para conversar, para partilhar...

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Espiritismo invade cinemas...



"O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que dimanam dessas mesmas relações. O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como das suas relações com o mundo corporal".  (Allan Kardec, in "O que é o Espiritismo")

Para quem tivesse dúvidas sobre o que é o Espiritismo (ou Doutrina Espírita), fica agora mais claro. A Doutrina Espírita tem 5 pontos básicos: a existência de deus, a imortalidade do Espírito, a comunicabilidade dos Espíritos, a pluralidade das existências (reencarnação) e a pluralidade dos mundos habitados.
Para se conhecer bem o que é o Espiritismo, deve o leitor começar por ler "O Livro dos Espíritos", "O Evangelho Segundo o Espiritismo", "A Génese", "O Céu e o Inferno", "O Livro dos Médiuns" (de preferência por esta ordem). Os livros "O que é o Espiritismo" bem como "Obras Póstumas", todos de Allan Kardec, também são de considerar.
Através da Doutrina Espírita (que não é mais uma religião nem mais uma seita, mas uma doutrina, um conjunto de ideias que contribui para o aumento da religiosidade, da espiritualidade do ser humano, aproximando-o assim mais rapidamente de Deus), as pessoas encontram respostas para as questões essenciais da vida: quem sou, de onde venho, para onde vou após a morte do corpo de carne, porque sofremos de forma dissemelhante, porque somos felizes de forma diferente?
Baseada em factos, a Doutrina Espírita providencia uma fé raciocinada, esclarecendo e consolando as pessoas, que assim encontram uma lógica para a vida na Terra e suas assimetrias.
A Doutrina Espírita apareceu em 1857, em Paris, com o lançamento de "O Livro dos Espíritos" de Allan Kardec, na sequência dos estudos deste sábio francês, que pesquisou acuradamente os fenómenos mediúnicos (contactos com o mundo espiritual), comparando-os, experimentando, repetindo, aplicando o método experimental como ainda hoje se conhece.
Doutrina ainda muito jovem, tem despertado de tal modo o interesse junto das populações pelo mundo inteiro, que desde 2008 que a 7ª Arte se tem voltado para a temática espírita.

Baseada em factos, a Doutrina Espírita providencia
uma fé raciocinada, esclarecendo e consolando.

No Brasil foi lançado um 1º filme de grande impacto, sobre a vida do médico, político, espírita, Adolfo Bezerra de Menezes, apelidado de médico dos pobres, figura nobre da sociedade brasileira, agora retratado no filme "Bezerra de Menezes: o diário de um Espírito", que foi um verdadeiro êxito de bilheteira.
Em 2010, o filme "Chico Xavier" sobre a vida de um dos maiores médiuns na Terra, um homem bom cuja vida foi um hino ao Amor ao próximo, teve mais de 3 milhões de espectadores em salas de cinema brasileiras. Ainda em 2010, seguiu-se o filme "Nosso Lar", que traz para o cinema a história de uma cidade no mundo espiritual, do livro "Nosso Lar", ditado pelo Espírito André Luiz através do médium Chico Xavier, que teve mais de 4 milhões de espectadores nas salas de cinema brasileiras.
Em 2011, Hollywood rendeu-se à temática com o filme de Clint Eastwood, "Hereafter - Outra Vida", e em breve estreará no Brasil novo filme intitulado "As Mães de Chico Xavier", que abordará as comunicações espíritas através deste famoso médium, onde milhares de mães encontraram provas inequívocas de que os seus filhos, falecidos precocemente, voltavam do Além para as consolar, provando a sua imortalidade.
Já nos idos do século XIX Allan Kardec preconizara a importância da arte na divulgação do Espiritismo, doutrina esta que esclarece e consola quem busca conhecer um pouco mais da Vida, e quem busca espiritualizar-se.
Curiosamente, nos dias que correm, múltiplos cientistas vão-se adentrando em áreas fronteiriças do Espírito, comprovando em laboratório as teses espíritas, compiladas por Allan Kardec, em meados do século XIX.

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Vida Além da Morte...na EXPOESTE



Em 24, 25 e 26 de Fevereiro debateu-se a imortalidade do Espírito, nas Caldas da Rainha. Iniciativa do Grupo "Mais Oeste", contou com o apoio das duas associações espíritas locais, englobando uma entrevista, um debate, um seminário e uma sessão de pintura mediúnica. 

Correspondendo às expectativas dos ouvintes e leitores do grupo "Mais Oeste", foi organizado um fim-de-semana cultural onde se debateu a imortalidade do ser humano e a possibilidade ou não da vida para além da morte. 
No dia 24 de Fevereiro, 5ª feira, José Lucas, membro do Centro de Cultura Espírita de Caldas da Rainha e da Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal (ADEP), concedeu uma entrevista à Mais Oeste Rádio 94.2 FM, onde com a acutilância de João Carlos Costa como entrevistador se debateram temas fronteiriços com a imortalidade. 
Questionado acerca da imortalidade, José Lucas apontou experiências científicas que vêm sendo efectuadas desde meados do século XIX que indiciam a imortalidade do ser humano. Foram ainda referidos os médiuns comerciantes, charlatães e outras instituições que comercializam os dons espirituais, tendo sido referido que numa associação espírita nunca se cobra um cêntimo que seja por qualquer actividade, nem tão pouco se aceita dinheiro em troco de alguma actividade, sendo essas associações suportadas pelos seus associados. José Lucas referiu ainda, que nas Caldas da Rainha apenas existem 2 associações espíritas, o Centro de Cultura Espírita (Bº Morenas) e a Associação Cultural Espírita  (Bº Ponte). 
No dia seguinte, 6ª feira, dia 25 de Fevereiro de 2011, teve lugar um debate no auditório da EXPOESTE, promovido pelo Grupo Mais Oeste, com o apoio da Câmara Municipal de Caldas da Rainha. Na abertura do evento, o Sr. António Marques da ADIO, entidade gestora do espaço físico onde decorria o evento, realçou perante as cerca de 130 pessoas presentes, a importância de se discutirem ideias, mesmo que não se concordem com elas, e que era importante ouvir a opinião do Espiritismo, como movimento cultural da sociedade. João Carlos Costa, com a sua acutilância habitual, moderou o debate que durou entre as 21H00 e as 23H00, incluindo a participação do público. Presentes na mesa, a Profª Amélia Reis e José Lucas (Militar), ambos do Centro de Cultura Espírita, responderam às muitas questões colocadas pelo jornalista moderador do debate. Amélia Reis contagiou a audiência com a sua simplicidade e serenidade, ao referir como conhecera a Doutrina Espírita, na sequência da morte do seu filho, vítima de acidente de viação, realçando casos concretos em que o seu filho se teria manifestado posteriormente, através de médiuns, no centro espírita onde colaborava. Hoje, feliz, apesar das dificuldades da vida, tem como meta esclarecer e consolar os corações aflitos dos demais. 

                          Florêncio Anton, em transe, pintou, de olhos fechados,
com as mãos borratadas de tinta, lindíssimos quadros a óleo,
assinados por pintores falecidos, cujos estilos e luminosidades
seriam idênticos aos dos referidos pintores aquando na Terra. 

No sábado, dia 26 de Fevereiro, teve lugar, na parte da tarde, um seminário subordinado ao tema "Saúde e Espiritualidade", onde Florêncio Anton, médium de efeitos físicos, pedagogo, licenciado em enfermagem e terapeuta, estudante de psicologia, interagiu com as cerca de 130 pessoas presentes, provenientes de várias cidades do país. Uma tarde agradável, onde saúde, espiritualidade e ciência estiveram de mãos dadas. 
Pelas 21H00, Florêncio Anton, em transe, pintou, de olhos fechados, com as mãos borratadas de tinta, lindíssimos quadros a óleo, assinados por pintores falecidos, cujos estilos e luminosidades seriam idênticos aos dos referidos pintores aquando na Terra, segundo algumas pessoas interessadas em arte e conhecedoras de pintura. Uma conhecida pintora caldense, que estava presente na sala, afirmou publicamente que aquelas 2 horas foram a mais bela aula de pintura a que jamais tinha assistido. 
A sala do auditório da EXPOESTE foi pequena para as cerca de 230 pessoas presentes, que não arredaram pé até cerca das 23h30. 
Estes eventos tiveram o apoio da Associação Cultural Espírita e do Centro de Cultura Espíritas, as duas únicas associações espíritas da zona. 
Haverá vida para além da morte? 
Para os espíritas, sim, dizem que as evidências e as provas são tantas que não é possível não querer ver. 
Para os cépticos, há que esperar novas comprovações da ciência terrena. 
Para os organizadores do evento, mais importante do que chegar a conclusões, foi, isso sim, o debate de ideias, de modo saudável, despretensioso e respeitável, entre todos. 
Foi opinião unânime que foram momentos bem passados. 
O Sr. António Marques, da ADIO, referia perante o público, que mesmo não conhecendo a Doutrina Espírita, era respeitável a sua postura séria e cultural dentro da sociedade. 
João Carlos Costa, com a sua vivacidade contagiante, foi o motor destes eventos, onde a discussão foi envolta num ambiente são e amigável entre todos, quer concordassem ou não com as matérias em pauta. 
Ficou a promessa de novos eventos. 

(in Jornal das Caldas de 03 de Março de 2011, Portugal)

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Ser e ter...



No mundo moderno, o homem busca desenfreadamente a felicidade onde ela não está: fora de si, nos bens materiais, no gozos externos, a manifestarem-se sob a forma de vários matizes, e que após serem fruídos levam à frustração. 
No mundo moderno, o homem perdeu o Norte de Deus, da sua espiritualidade, e julgando-se matéria que um dia ficará inerte, dá vazão ao seu egoísmo, procurando cada vez mais ter  coisas, pouco se preocupando em ser pessoa de bem. 
No mundo moderno, após todas as frustrações sentidas, o homem revolta-se sem saber bem do quê e porquê, amalgamando-se em turbas descontentes que originam turbulentas transformações sociais, como as que temos visto nomeadamente nos países árabes. Tal situação é transversal a todo o planeta, onde o homem, imerso no seu egoísmo, ainda não conseguiu descortinar a sua componente espiritual, eterna, que o faria mudar de paradigma, de atitude, em face ao devir. 

                              Fazer ao próximo o que gostaríamos que nos fizessem,
é a chave da felicidade, que o homem teima em não querer usar 

A Doutrina espírita (ou Espiritismo) explica-nos que somos seres imortais, temporariamente num corpo de carne, que existe uma força superior que tudo governa (a quem convencionámos apelidar de Deus), que é possível comunicar, dentro de certas condições, com aqueles que se encontram no mundo espiritual, através  de pessoas que tenham características especiais para tal (os médiuns), que a reencarnação é uma realidade evolutiva sem a qual não haveria justiça divina, pois que não haveria tratamento igual de Deus perante os seres que criou, que existem múltiplos mundos habitados por seres inteligentes, embora com corpos diferenciados, de acordo com a natureza dos mundos em pauta. 
A felicidade só será possível quando largarmos o casulo do egoísmo e nos abrirmos à sociedade, interagindo com ela de um modo fraterno, holístico, humanista, dentro da assertiva espírita "Fora da caridade não há salvação", querendo com isso realçar que a caridade, nas sua múltiplas facetas, é o caminho mais seguro e rápido para a espiritualidade superior do homem. 
Compete ao homem, perante esse desiderato inevitável, escolher dentro do seu livre-arbítrio, ser feliz mais rápida ou mais lentamente, conforme o seu esforço pessoal. 
Quanto à felicidade, ela encontra-se mesmo ao nosso lado, basta... querer vê-la e mudar de atitude mental perante o quotidiano que se nos depara, realçando sempre as situações pelo lado optimista, útil, procurando fazer ao próximo o que gostaríamos que nos fizessem, conforme aconselhava sabiamente Jesus de Nazaré. 

Bibligrafia: Kardec, Allan - O Livro dos Espíritos 

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Raul Teixeira: Chico Xavier não foi Kardec


JL - O Dr. Raul Teixeira é físico, é doutorado na área da Educação, foi Professor da Universidade Federal Fluminense, de Niterói, Rio de Janeiro. Ainda é, ou já está reformado?
Dr. Raul Teixeira - Estou reformado há dois anos.


JL – Sei que orienta «O Remanso Fraterno», que é uma instituição que apoia crianças.
RT – Sou um dos directores, sim. Crianças socialmente carentes e as famílias dessas crianças. Fazemos um trabalho de escolarização das crianças. Elas entram às 7H30 da manhã, saem às 17H00, nós temos transporte, para ir buscá-las e devolvê-las aos mesmos lugares. Os pais vão deixá-las e vão buscá-las aos mesmos lugares.

JL – Porque é que se meteu com uma trabalheira dessas, quando podia levar uma vida tão boa como professor universitário?
RT – O que ocorre é que eu sou um professor universitário espírita, e sempre, desde jovem, fazendo palestras espíritas e pregando a fraternidade e a caridade como bandeira. E os bons espíritos entenderam que era importante que o meu falar tivesse o respaldo da minha prática. A minha prática de vida pessoal era uma prática já vivida por mim, ainda que com esforços, mas a minha prática social precisava de ser desenvolvida. Então em 1978 reuni um grupo de companheiros, começámos a atender numa das favelas da minha cidade. Durante 2 anos atendemos ali, fundámos, em função disso, a sociedade espírita, logo o nosso trabalho social começou antes da fundação do Centro Espírita da Sociedade Vida Fraternidade. Depois dessa sociedade fundada nós não pudemos mais manter os trabalhos sociais na mesma favela, porque ela foi urbanizada pelo Governo e não nos permitiram mais qualquer espaço físico e como nós tínhamos o trabalho de reforço escolar, de aulas de costura com as mães, etc., precisávamos de espaço físico. Daí saímos para adquirir um terreno de 50 mil m2 onde instalámos há 22 anos o «Remanso Fraterno» e dessa maneira o Remanso vem sendo o braço social da sociedade espírita Fraternidade, embora a sociedade tenha nascido a partir desse trabalho social na favela.

JL – O Raul seguiu um chamamento, uma opção interior, ou foram os espíritos que lhe propuseram essa tarefa?
RT- Não, eu não tive nenhum desejo pessoal de começar alguma coisa, de fazer alguma coisa. Desde criança fui chamado pelo mundo dos espíritos. Até onde a minha memória alcança, tinha dois anos e meio de idade quando comecei a registar os espíritos e digo até onde a minha memória alcança porque comecei a registar os espíritos atravessando as paredes, descendo o tecto, conversando com a minha mãe, a minha mãe ainda era encarnada e era médium, vidente, audiente, médium de efeitos físicos. Eu nasci num lar de médiuns, eles não eram espíritas, eram médiuns, a minha mãe e a minha irmã mais velha, até que eu perguntava à minha mãe, muito criancinha, o que era aquilo que eu estava vendo, quem eram aquelas pessoas que atravessavam paredes e ela dizia-me naturalmente, para acatar a minha mentalidade infantil, que eram os nossos irmãos de luz e eu fiquei com essa frase na minha cabeça.
A minha mãe desencarnou quando eu tinha apenas 4 anos de idade, logo, as memórias que eu tenho dela foram até essa data e depois disso envolvi-me com trabalhos da igreja católica, o meu pai colocou-me junto à igreja católica porque naquela época as famílias, mesmo que tivessem mediunidade, que fossem médiuns, todo o mundo se dizia católico, porque não se conhecia na nossa região nenhum centro espírita. Onde eu vivia não havia centro espírita e depois dos meus 17 anos, continuando aqueles registos é que eu pude conhecer o Espiritismo. Conversando com um amigo meu de infância que há muito não via a respeito das coisas que eu sentia, dos registos, a minha conversa com o sacerdote e ele sempre me orientava para ler a Bíblia e aos 14 anos para 15 eu tinha lido a Bíblia cinco vezes de ponta a ponta e ele me dizia que o que eu via era o Satanás e eu dizia-lhe que via a minha mãe e ele dizia que era o Satanás que se fazia passar por minha mãe e eu dizia que eles me davam bons conselhos e ele afirmava-me que o Satanás também dá bons conselhos e então foi-me criando uma confusão na cabeça. Então se Deus dá bons conselhos e Satanás também, é difícil a gente optar com quem fica. Conversando com esse amigo, José Luís Vilaça, ele disse-me que frequentava um grupo de jovens espíritas e que se eu quisesse ir lá visitar, ele me levaria. E de facto, eu fui, atendendo ao seu convite, conhecer um grupo de jovens espíritas e desde 1967 eu conheci esse grupo de jovens ao qual me vinculei porque eu, que eu tinha uma suposição bastante equivocada a respeito do que fosse o Espiritismo e um grupo de jovens espíritas para mim parecia-me uma coisa muito surreal, acabei por me encantar porque achei jovens da minha faixa de idade alegres, joviais, estudando, conversando, cantando e com muita seriedade e toda uma mensagem que eu vim a saber que era a doutrina espírita. Estudei, li avidamente os livros da codificação espírita, os livros que me caíram na mão. O primeiro livro que eu li, antes de estudar Kardec, foi o livro de Leon Denis, «O Problema do Ser, do Destino e da Dor» que me causou viva impressão, uma paixão imensa até hoje e só depois de Leon Denis é que eu comecei a estudar os livros de Allan Kardec. Recebi outro impacto muito forte ao perceber que as ideias de Allan Kardec eram exactamente as coisas que eu pensava e que eu não imaginava que estivesse aquilo devidamente escrito, codificado, organizado. E nesse primeiro dia que conheci um centro espírita na actual encarnação, por ser muito tímido, eu vi a aula daquele dia muito bem ministrada pela professora, até que ela me perguntou, para me tirar com certeza do silêncio, o que é que eu sabia sobre o tema tratado. Naquela tarde estudava-se sobre a 1ª. Revelação de Deus ao Ocidente, falava sobre Moisés e quando eu ouvia falar de Moisés a minha alma fervia, porque eu tinha lido a Bíblia 5 vezes, eu tinha tudo de Moisés na cabeça, até que ela me perguntou o que é que eu sabia sobre Moisés. Nesse momento tive uma sensação muito estranha porque a língua pareceu-me crescida dentro da boca, o peito cresceu-me e eu falei durante vinte minutos sem respirar, sem parar, sem pôr vírgulas, sem pontos, sem nada. Falei num estado de semi-transe, sem raciocinar o que eu falava. Falei 20 minutos e quando parei de falar ela me anunciou, e à classe, que não tinha mais aula para dar, porque eu tinha falado tudo o que ela programara para a aula da tarde. E ficámos a conversar sobre o que eu tinha falado. Pela 1ª vez que entrei num centro espírita realizei a minha 1ª palestra e nunca mais parei.

JL – Até hoje...
RT – Até hoje. E com isso já se vão 44 anos e tenho essa felicidade de ter conhecido o Espiritismo através do Espiritismo. Não conheci o Espiritismo através de médiuns de mediunidade famosa, eu não me cerquei dessas coisas, eu apaixonei-me pelo Espiritismo, pela ideia, pela proposta, pela mensagem. E daí até hoje tenho muita dificuldade em admitir que um movimento espírita possa enraizar-se quando ele nasce em redor de  médiuns e de  mediunidade, porque na medida em que os médiuns falham, em que os médiuns se equivocam, uma vez que são seres humanos, tudo o que foi criado em cima deles desaba junto.

JL – Claro.
RT – Quando você torna-se espírita em torno da doutrina espírita, quem quiser pode cair, quem quiser pode levantar-se, você está com o espiritismo. Essa tem sido a minha felicidade até hoje de ter começado pelo espiritismo e ter tido muita resistência por aceitar a mediunidade em mim, resisti muito e quem me ajudou sobremodo nessa minha fase inicial do espiritismo para que eu aceitasse a mediunidade, admitisse a mediunidade, foi Divaldo Franco. Devo-lhe os diálogos pacientíssimos comigo, devo-lhe as orientações que me deu nesse capítulo, as oportunidades que ele me deu de exercitar a minha mediunidade no grupo espírita, no centro espírita Caminho da Redenção, nas suas reuniões mediúnicas a convite dele. Tive essa segurança de saber que qualquer deslize, qualquer coisa, ele me orientaria e me falaria. Foi só depois dessas orientações de Divaldo Franco que eu tive coragem de me apresentar como médium publicamente. Eu trabalhava a mediunidade num centro espírita.

JL - Eu não sabia que  tinha frequentado o Centro do Divaldo.
RT – Não, eu não frequentei, mas cada vez que eu ia a Salvador ele colocava-me nas reuniões e dava-me muito apoio e, vendo-me muito jovem e inexperiente, certamente ele se apiedava da minha ingenuidade e deu-me muito respaldo. Devo-lhe essa segurança mediúnica que tenho hoje, graças a Deus. Então foi assim que eu comecei na tarefa espírita. Conheci Divaldo Franco 3 anos depois de me ter tornado espírita e 4 anos depois conheci Chico Xavier e dessa maneira fui desenvolvendo o meu início espírita em muito boas bases, porque fui observando Divaldo Franco, fui observando Chico Xavier, D. Ivone Pereira tornou-se uma grande amiga minha, eu frequentava a sua casa e falávamos pelo telefone e as minhas dúvidas em relação à minha vida como espírita, eu conversava com essas criaturas e tive a oportunidade de ter um entrosamento com Deolindo Amorim, no Rio de Janeiro, que se me tornou um grande amigo, um excelente conselheiro, ele e a sua esposa. Eu tive uma formação da qual não me posso queixar. Se eu cometer algum deslize, se cometer algum desatino no trabalho espírita, isso deve-se à minha irresponsabilidade, não à falta da orientação, da formação que eu tive. Graças a Deus tenho procurado manter-me nessas bases, procurando o Espiritismo segundo a codificação espírita num tempo de muitos modismos, num tempo em que muita gente quer colocar os seus pontos e as suas vírgulas na codificação, numa época em que muita gente já quer «consertar» a codificação espírita, que ainda nem é conhecida. Neste mundo de muitos novidadeiros, felizmente tenho-me procurado manter na pauta da fidelidade ao conhecimento espírita, ampliando, desenvolvendo, discutindo, hoje com os meus companheiros da Sociedade Espírita Fraternidade a respeito da verdade que a doutrina espírita traz e da capacidade que ela tem de nos fazer entender a nós próprios, o nosso momento histórico, o nosso estado psicológico, psico-espiritual, de tal modo que nós saibamos viver neste mundo, sem que nos deixemos arrojar por este mundo, no chão das frustrações. Sabemos das dificuldades de viver num planeta como o nosso, o momento que estamos vivendo de muita necessidade e muito cuidado, de muita vigilância e isso tudo vai-nos levar a procurar ser pessoas inseridas no seu tempo com os pés fincados no chão da realidade mas com os olhos voltados para as estrelas.

Chico Xavier não foi Kardec, 
ele próprio me disse

JL - O Raul Teixeira é solteiro?
RT – Sou solteiro, sou.

JL – O Raul conduz automóveis?
RT – Sim, eu dirijo já há 20 anos. Durante muito tempo relutei mas hoje eu dirijo.

JL – E quem compra a sua roupa, é você ou tem alguém?
RT – Sou eu mesmo, eu não tenho secretário, não tenho empregados, tenho um faxineiro quinzenal.

JL – É o Raul que vai comprar esta camisa, aquelas calças?
RT – Sou eu é que compro, as minhas compras de casa, que pago as minhas contas, eu sou um homem normal, um homem no mundo, sou eu que vou ao Banco, pago as minhas contas, faço as minhas reservas de viagens, faço a minha agenda de viagens, não tenho secretários, conduzo a minha vida, regulo-a da mesma forma que toda a gente.

JL - Qual é a sua bebida alcoólica preferida, se é que bebe álcool?
RT – A minha bebida alcoólica preferida é H2O sem gás.

JL – Que tipo de música gosta mais?
RT – Olhe, eu gosto de todos os tipos de música desde que ela se enquadre bem nos momentos. Sendo brasileiro, gosto muito de samba, dos ritmos que nasceram do « afro» e no Brasil temos sambas muito bonitos, mas eu gosto de música clássica, gosto de bossa nova, do rock and roll, não do rock barulhento, do rock bate-estaca, isso não faz a minha cabeça porque eu não gosto de barulho, gosto de um rock balada, um rock romântico, e isso faz-me muito bem. Eu sou da geração da década de 1950/60, então  aprendi a gostar dessas músicas que eram a música típica da minha época.

JL – Raul Teixeira, qual é a sua comida preferida?
RT – Eu não tenho um prato preferido, eu gosto de comidas caseiras, eu gosto de coisas simples. Sou de uma família muito simples e aprendi a gostar de coisas simples, eu sou um homem do feijão com arroz, do legumezinho guisado e não tenho muitas exigências alimentares.

JL – Não sei se fuma ou não.
RT – Não, nunca fumei.

JL – Que tipo de filmes é que gosta?
RT – Gosto muito de filmes épicos, gosto muito de filmes históricos e encantam-me muito os filmes donde saímos levando uma mensagem, levando uma aprendizagem. Eu não gosto de filmes de melodrama. Não gosto nada que as pessoas saiam a chorar, não tenho um temperamento de muito chorar, sou de um temperamento de pensar e a minha formação académica ajuda-me muito nisso, porque nós vemos às vezes, no meio espírita, o povo que se acostuma muito a chorar e pensa pouco, e eu gostaria que o povo pensasse mais e chorasse menos. Estudando física ou matemática choramos de emoção quando vemos uma grande descoberta, a aplicação de um grande invento em prol da humanidade, o cientista também se comove. Mas não é esse choro barato de quem, por qualquer coisa chora, porque isso demonstra um desequilíbrio emocional.

JL – Existe algum planeamento no sentido de levar os cientistas a descobrir Deus, a descobrir o espírito, a curto prazo, ou será a médio ou longo prazo, ao longo deste milénio?
RT – Vejamos. Eu aprendi com os bons espíritos que as leis de Deus funcionam sempre rigorosamente. Do mesmo modo que ninguém fez planos de trazer à Terra o Espiritismo e no momento certo ele chegou, a despeito do que pensassem os outros, não existe nenhum trabalho nosso, no sentido de levar os cientistas a aceitar o Espírito, o Espiritismo, isso era uma pretensão muito grande, como se nós tivéssemos uma argumentação capaz de convencer o cientista. Então acredito que os cientistas, realizando o trabalho honesto que eles vêm realizando, não têm outra saída senão encontrar Deus. Como já vem acontecendo com muitos deles, individualmente.

JL – Estava a referir-me especificamente a eles descobrirem, por exemplo, a essência do perispírito, a vibração.
RT – Gradativamente eles estão chegando lá. Na área da Física, nós temos a área das micro-partículas e os físicos cada vez que mergulham nas micro-partículas descobrem partículas ainda menores. Estamos a encaminhar-nos para o campo das energias puras e ao chegarmos ao campo das energias puras não haverá saída para a admissão de um mundo de energias puras, chame-lhe a ciência como lhe chamar, nós chamamos-lhe mundo normal primitivo, ou mundo dos espíritos. Os cientistas já se dão conta há muitos anos que há possibilidade (a ciência tem esse cuidado), de haver vida noutros mundos, noutros planetas, já estão a instalar antenas de captação de sinais de rádio para essa tentativa de registar alguma coisa cósmica. De maneira que os cientistas dotados desse amor pela humanidade, de querer descobrir coisas novas, de inventar coisas novas, eles certamente são bem inspirados pelos guias que guiam o nosso planeta. Não precisamos, nós os espíritas de ter nenhuma ansiedade, vamos cumprindo o nosso trabalho. Enquanto nós estivermos com qualquer pensamento de convencer o cientista, ou a quem quer que seja, estaremos deixando de lado a nossa vivência espírita, que é mais fundamental. De modo que cada um vai ter a sua época de chegar, do mesmo modo que nós demorámos o tempo x, y, z para chegar e aceitar o espiritismo, ainda que, nas proporções que o fazemos, chegará o dia em que cada cientista, cada filósofo, cada pensador, cada materialista, cada ateu vai encontrar seu caminho de Damasco.

JL – Também usa telemóvel?
RT – Ah, sim, uso telemóvel, insiro-me no progresso possível aos meus tempos.

JL – Dentro do conhecimento que tem, viu o filme «O Nosso Lar». Aquilo está próximo da realidade, retrata mais ou menos a realidade no mundo espiritual?
RT
– Tendo em vista que o filme foi orientado e teve a participação de muitos espíritas que opinaram, os factos ali mostrados estão muito próximos da realidade. Naturalmente que o mundo espiritual é muito mais intenso, muito mais rico, as cenas que nós registamos do mundo espiritual umbralino, das regiões de sofrimento, são muito mais intensas do que se pode fazer num filme. Até porque, no mundo dos espíritos, na medida em que os espíritos vão pensando nos seus tormentos, esses tormentos vão-se expressando como se fossem "materialmente", e naturalmente isso o filme não podia mostrar e cada coisa que eles pensam aparece em volta deles e tudo isso. Mas está muito próximo da realidade. Eu lamento que sempre que assistimos a um filme desse teor, não tenhamos a oportunidade de fazer um debate em torno dele, para que extraiamos do filme o que a massa do público não consegue extrair. Nós vemos mas não entendemos, ninguém sabe porque é que aquilo foi posto no filme.


JL – Mas  Raul, como físico que é, o André Luiz ditou isto na década de 40.
RT – Na década de 30.

JL – Já lá vão 80 anos. Quer dizer que nesta altura já está desactualizado? O mundo espiritual já deve ter evoluído?
RT – Não, não, a Terra é que evoluiu para chegar ao que o mundo espiritual era há 80 anos...

JL – O mundo espiritual não evolui tecnologicamente?
RT – Sim, mas acontece que esses conhecimentos que o mundo espiritual tem hoje, nós só vamos obter daqui a muito tempo, porque estamos hoje a materializar o que no mundo espiritual já era facto corriqueiro há muito tempo. Nós não temos esse imediatismo, nós não conseguimos captar imediatamente o que o mundo espiritual já produz. Eu recordo-me que há quase 40 anos, vivi um desdobramento espiritual, em que fui levado por entidades benfeitoras a penetrar um antro de espíritos obsessores que planeavam obsidiar um grupo de criaturas terrestres; fui usado como uma isco para que eles ao verem-me, corressem atrás de mim e pudessem manifestar-se nas reuniões mediúnicas, como aconteceu. O facto é que, ao entrar numa das salas daquele contraforte, à beira do mar, vi uma série de televisõezinhas sobre as mesas, nas quais passavam os nomes das pessoas com as respectivas imagens. Não se falava de microcomputador ainda no Brasil, aquilo já era um microcomputador, quando eu narrei aos meus companheiros as televisõezinhas diferentes, que marcavam o nome das pessoas. E depois, quando eu vi o primeiro microcomputador da minha vida, reparei que era isso que eu tinha visto no desdobramento. Então o mundo dos espíritos tem coisas que nós ainda nem sonhamos ter na Terra, porque precisam que aqueles espíritos reencarnem ou inspirem os indivíduos que estão na área da pesquisa tecnológica, para que eles então comecem a trazer para cá. Há muitos anos tive oportunidade de ver, no mundo dos espíritos, uma exposição de livros destinados a crianças, livros infantis, livros espíritas infantis onde as imagens saltavam das páginas. Nós estamos longe ainda disso e no mundo espiritual isso já é corriqueiro. Não é facto que, na hora em que o mundo espiritual apresenta um desenvolvimento, a Terra já o assimile imediatamente. Porque, aquele indivíduo que preparou aquilo, que aprendeu aquilo no Além, tem de reencarnar, chegar à idade da razão, entrar na idade da pesquisa, e só então, com a dificuldade limite do planeta, ele consegue exteriorizar aquilo. De modo que o mundo espiritual está sempre muito à frente de nós, e nós, com a nossa mentalidade muito conservadora, ainda demoramos a assimilar as coisas novas do Além.

JL – Porque é que há tanto mistério em torno de Allan Kardec? Nas «Obras Póstumas», que não faz parte da codificação, diz que ele voltaria para completar a sua obra. Uns dizem que o Allan Kardec poderia ter sido o Chico, outros dizem que podia ser o Divaldo Franco porque tem todo o perfil de educador, a obra, outros dizem que podia ser o Raul, outros dizem que ele estará no mundo espiritual, se está porque é que ele não se comunica, se ele se comunica, se  usa pseudónimos ou não usa, porquê tanto mistério quando as coisas são tão simples?
RT – Existem nessas suas abordagens algumas questões equivocadas. Há muitos anos, Chico Xavier disse-me, pessoalmente, numa conversa que tivémos em Uberaba, que a mensagem mais autêntica de Allan Kardec que ele tinha lido, tinha sido recebida pela médium brasileira D. Zilda Gama, professora, que se achava num livro chamado «Diário dos Invisíveis». Eu procurei esse livro, que está esgotado, encontrei-o e estava lá a mensagem de Allan Kardec. Depois disso, nós tivemos uma mensagem de Allan Kardec recebida por vários médiuns na França, no Brasil. Como é que nós podemos dizer que o Chico Xavier é Allan Kardec se ele dizia que a D. Zilda Gama recebera a mais autêntica mensagem? Se enquanto Chico estava encarnado outros médiuns receberam mensagens de Allan Kardec? O «Reformador» publicou essas mensagens. Então, não é que nós queiramos fazer complexidade, é que as pessoas ficam tirando proveito da ignorância alheia. Quanto menos o povo sabe, eu posso dizer as minhas tolices. Agora as pessoas dizem isso, alegam que era por ele ser humilde; então ele enganou-me, porque podia ser humilde e não dizer nada. Mas se ele me disse aquela mensagem, ele era merecedor de crédito, eu não podia duvidar do que falava. Se ele diz a outras pessoas a mesma coisa, ele não podia estar a fingir, senão eu perco o crédito que eu dava à mediunidade de Chico Xavier e ao homem que ele era. De modo que não existe confusão, existem exploradores. O Chico estando desencarnado, toda a gente fala dele o que bem entende, o que bem deseja, e ele não está aí para defender-se, de modo que nós, os espíritas é que temos de ter bom-senso, e bom-senso e água fluidificada não nos fazem mal jamais. Eu não posso acreditar em tudo o que dizem, eu tenho que ver aquilo que tem senso, que tem nexo, e se Allan Kardec estivesse aqui reencarnado, qual seria a vantagem disso para nós? O nosso problema é viver o Espiritismo e não Allan Kardec. Porque também já dizem que Jesus Cristo está aqui reencarnado, e no Brasil há um que diz ser Jesus Cristo.

JL – Tem algum tipo de  informação de que Kardec estará ainda no mundo espiritual?
RT – Para mim, ele está no mundo espiritual.

(Entrevista concedida pelo Dr. José Raul Teixeira ao Jornal de Espiritismo, da ADEP, Portugal, aquando do 6º Congresso Espírita Mundial, Valência, Espanha, Outubro 2010)
Transcrito do áudio por Conceição Venâncio. Fotografia de Jorge Gomes, 1996.