1.9.12

O Padre...


Venho de longe
Para contar
O meu caso
Que é de pasmar!

Fui Padre
Dava penitências
Perdoava pecados
Tinha reverências

O Poder ofuscou-me
E a matéria também
quando dei por ela
só queria vintém, vintém

Com grande oratória
E porte esbelto
Era por uns admirado
Por outros tido como esperto

Ouvindo em confissão
Damas frustradas
Muitas vezes as orientei
Comigo deitadas

Quando dei por ela
Era Padre sem o ser
Mas já estava viciado
No que me havia de perder

Fui envelhecendo
Perdendo a beleza
Agora somente o Poder
Era a minha realeza

"Bom dia, Sr. Padre"
Cumprimentava o Sr. Zé
"Deus o abençoe, irmão"
Falava eu sem fé.

Nem sei se acreditava
Na vida imortal
Ser Padre era profissão
Não se ganhava mal

Quando a morte veio
Fiquei em aflição
Agora o que vai ser?
O fim, o inferno, o perdão?

Dei por mim vivo
Ao lado do caixão
Todos me elogiavam
O "nobre" coração

Oh, quanta dor
Ao ouvir tanto elogio
Afinal fora fingido
Enganando de fio a pavio

Inquieto fiquei
Adveio escuridão
Pensei: estou vivo
Que fazer na imensidão?

Fazia o sinal da cruz
Ritual da liturgia
Vozes galhofeiras
Ouvia noite e dia

Orei sem orar
Pensando ter o Poder
Do pobre Padre
Q' agora não sabia que fazer

Risos e mais risos,
Empurrões, palavrões,
Mostrei o crucifixo
Pensando em soluções

Senti-me um verme
Sem qualquer Poder
Duvidei de Deus
Queria morrer

Todas as minhas faltas,
Erros, abusos, omissões,
via repetidamente
como alucinações

Só aí me apercebi
Do quanto errara
Tinha sido Ministro de Deus
E a ninguém amara

Chorei copiosamente
Pedi ajuda divina
Meu choro foi sincero
Aliviou a alma minha

Ténue luz ao fundo
Fez-me correr com emoção
Espírito nobre me buscava
"Vem: está na hora meu irmão."

Não imaginam a vergonha
Que senti quando recolhido
Pelos samaritanos de Jesus
que me livraram do perigo

Era Padre e já não era
Eu não era ninguém
Ao ver a real humildade
Chorei, vezes cem...

Alma feminina, bondosa
Me acarinhou o coração
Acalma-te, tudo passa,
Vida nova, meu irmão

Só aí me apercebi
Que ser "grande" na Terra
É meio caminho andado
Para ser o que muito erra

Seres luminosos eu via
Que miseráveis tinham sido.
Sorriam com amizade
Ao Padre mal agradecido

Tanta vergonha tive
Que só tinha uma solução
Prometer reerguer-me
Entreguei-me à oração

Aprendi posteriormente
Que cada um é o que faz
E que perante Deus
Ser duque ou terno, tanto faz

Somos cartas
Do divino baralho
E depois de tanto erro
Voltamos ao trabalho

Voltarei à Terra
novamente como prior
Para ver se desta vez
No fim levo a melhor.

A posição social
Nada vale meu irmão
Aumenta a vaidade
E ajuda-te no trambolhão

Se puderes, passa despercebido
Amando, servindo na rectaguarda
Pois mesmo que ninguém note
No céu Deus te guarda!

Um Padre vosso amigo.
Poeta alegre
Psicografia no ENL, em Óbidos, Portugal, por JC, em 10 de Outubro de 2011

1 comentários:

Anónimo disse...

Muito interessante.
O prémio é o que se recebe do outro lado

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