9.8.10

Espíritas tristes...?


O telefone tocou, o número era desconhecido. Lá o atendi no meio de meia dúzia de papeis, dizendo aquilo que não sentia, que não incomodava, quando de facto estava assoberbado de trabalho. Nutria a esperança de um telefonema rápido. Era um senhor de Lisboa, católico praticante. Tinha entrado na página da Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal (ADEP), na Internet, e vira lá o meu nº de telefone. Já lera muita coisa sobre reencarnação. Esse conceito falava-lhe alto no íntimo, embora o catolicismo o negue. Seguiu a sua consciência, precisava saber mais. Assim de momento, tinha em mente o nome de dois centros espíritas de Lisboa, remetendo-o para a página da ADEP na Internet, onde existem outros endereços. Ao referir o nome de um deles, o meu interlocutor atalhou: «Sabe? Vou confessar-lhe uma coisa, mas não leve a mal! Um dia passei em frente a esse centro espírita que me falou, e estive tentado a entrar mas, ao chegar à porta, vi as pessoas que lá estavam, com uma cara tão triste que pensei: isto não é para mim, eu quero é alegria.» O senhor poderia indicar-me um centro que fosse mais alegre?
Confesso que engoli em seco...
Uns tempos antes, estávamos numa conferência pública, no centro onde colaboramos, nas Caldas da Rainha, no Centro de Cultura Espírita. O palestrante, Mário Correia, professor de profissão, fez brilhante conferência espírita que nos deleitou a todos, mesmo àqueles que já conhecemos a Doutrina Espírita (ou Espiritismo), utilizando não só os seus vastos conhecimentos, como um requintado espírito de humor que deixou boa disposição e alegria no ar. No fim da palestra, no meio de uma troca de impressões que geralmente acontece entre os presentes, dentro de um ambiente alegre e sadio, um senhor, nosso desconhecido, aproximou-se do palestrante dizendo: «Sabe, eu também sou palestrante espírita, num centro espírita em Lisboa. Estou aqui de férias, pois como é Verão costumo vir até aqui, e quis conhecer o vosso centro, mas vou desiludido». Mário Correia, na sua simplicidade, lá o ouviu, procurando assim melhorar o seu desempenho no futuro. E o nosso visitante, espírita, palestrante e dirigente de um centro espírita da capital, lá continuou: «Sabe, nós dirigentes e palestrantes, devemos falar e orar de modo a levar as pessoas às lágrimas, comovê-las até elas chorarem, e aqui não vi nada disso. Onde já se viu contar histórias numa palestra e pôr as pessoas a rir? Isto é um local sério. Nunca mais cá volto, confesso a minha desilusão.»
E nunca mais voltou...

O Centro Espírita, não precisa de toalhas brancas rendadas nas mesas,
a imitar os altares das igrejas, não precisa de fotografias na paredes,
de espíritas de referência, a imitar os santos das igrejas.

Léon Denis, o célebre filósofo espírita francês, referiu com muita propriedade que, uma coisa é o Espiritismo, na sua grandiosidade como ciência, filosofia e moral, e outra coisa são os movimentos espíritas, aquilo que os homens fazem do espiritismo.
Fiquei a meditar: e se eu me interessasse pelo espiritismo e entrasse no centro triste ou no centro onde saísse lavado em lágrimas de tanta emoção? Certamente, se fosse mais desatento, não voltaria a interessar-me pelo assunto.
Urge pois, conforme lembrava e muito bem Herculano Pires, despir a prática espírita dos atavismos que trazemos do passado, quer de vidas anteriores onde militámos em religiões tradicionais, quer desta vida onde vivenciámos práticas com rituais nessas mesmas religiões. O Centro Espírita, não precisa de toalhas brancas rendadas nas mesas, a imitar os altares das igrejas, não precisa de fotografias na paredes de espíritas de referência, a imitar os santos das igrejas.
O Centro Espírita, é um local onde a simplicidade contagiante da sua mensagem deve extravasar para o local, simples, acolhedor, onde a mensagem de optimismo, alegria, esclarecimento e consolo, não se coaduna com uma postura de reverência ao sofrimento. Não existem espiritismo triste, embora alguns espíritas o possam ser, por ainda não terem conseguido assimilar a alegria, dinamismo, optimismo e força que é característica da Doutrina Espírita.

7 comentários:

Joana disse...

Olá Lucas!

Sem dúvida, escolho o centro onde se ouve uma boa gargalhada.

Não há nada que me deixe mais feliz do que ver pessoas felizes e bem dispostas.

Tristeza temos nós que chegue no dia a dia, pois os tempos são de dificuldades,

Não é por isso que o centro deixa de transmitir a Doutrina em toda sua seriedade,
Muitas vezes as pessoas se dirigem ao centro porque tem grandes problemas ou tristezas, o riso é uma óptima terapia e uma ou outra gargalhada durante uma palestra, não vai tirar nada a mensagem nem aos ensinamentos, pelo contrario, muitas vezes recordamos melhor que uma palestra monótona onde adormecemos.

Abraço

joana

Eduardo Freitas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alice disse...

Olá Lucas!

Concordo plenamente uma boa risada faz a diferença.

Nas minhas férias tive uma má experiencia ao visitar outro Centro Espirita para ouvir a palestra, o tema era bastante interessante como anuciava na porta, mas não sei se era do calor, do altar ou do ambiente triste passei uma hora muito aborrecida e sem me concentrar no tema.
Assim não se consegue transmitir a verdadeira filosofia espirita. Gosto muito das palestras efectuadas no Centro Espirita das Caldas, é o centro com o qual me identifico.


Abraço

Alice

Guerreiro da Luz disse...

Tristesas realmente não pagam as dívidas... dívidas que acumulamos do passado... Fico bastante agradado eu que até sou um desses espíritas que ainda não consegue andar alegre e feliz todo o tempo com os belos gracejos que no meio das palestras os comunicadores espíritas nos contam... nada como uma boa gargalhada para descomprimir de um assunto sério. Ainda estudo e também muioto me agrada no meio das matérias expositivas os meus professores "sacarem" de uma boa anedota para limpar o ambiente sério em que muitas vezes nos mergulhamos... há pessoas que confundem bom animo e alegria com ao gozo que alguns fazem contando anedotas de calibre chulo deseducado e gozão... a alegria é um sentimento nobre e para combater a tristeza depressiva e neurótica nada como o sorriso e o riso... temos que ser mas é mais positivos em todos os quadrantes da nossa vida, na fé que praticamos, no trabalho que fazemos no convívio que temos...
Força amigo continua a tua alegre e feliz divulgação da da doutrina
Saudações espíritas
MCosta

Anónimo disse...

olá Lucas

Só de sabermos que a morte não existe e o espirito sobrevive após a morte do corpo fisico, já é motivo para andarmos sempre felizes.
o centro espirita é um lugar de estudos bem sérios no entanto se estivermos tristes o que é que transmitimos ao lado de lá, naturalmente tristeza e penso que é nossa obrigação através da prece do recurso da mediunidade e até através dos nossos actos com todo o respeito pelo nosso próximo enviar alegria, paz e uma mensagem de esperança oas entes que mais sofrem e quiça com muito humor sem vilipendiar os propositos cristãos do espiritismo, portanto haja alegria e bom humor nas palestras.

Vitor

Anónimo disse...

É por isso que eu sempre gostei do Chico...pq ele levava o seu trabalho a sério, mas com muito bom humor.

Anónimo disse...

Olá Lucas!

Continua assim,gosto muito das tuas palestras.
Frequento o centro já a alguns anos,e continuo a gostar.

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