7.6.10

Como voar? (o pardalito)


As contingências da vida fizeram com que tivesse de dormir num hotel. No dia seguinte, de manhã, enquanto tomava o pequeno-almoço, ia apreciando pequeno pardalito, bebé, que saltitava com esforço, no lado de fora do vidro da sala de refeições.
Que se passaria com ele?
Após rápida inspecção visual, deu para perceber que não estava aleijado e, quiçá, teria caído do ninho. Talvez nunca tivesse tido o ensejo de voar, talvez estivesse à espera de algum impulso natural para bater as lindas asitas que possuía, e que se calhar, nem sabia para que serviam.
De salto em salto, ia piando, como que a pedir ajuda.
Fiquei a pensar que, rapidamente morreria de sede e fome, mas depressa alterei o rumo do pensamento: afinal a natureza é sábia e, decerto ele vai sobreviver e perpetuar a espécie, um dia mais tarde.
Envolto neste emaranhado de elucubrações, vejo o pardalito a olhar para o céu, para o horizonte, como que a medir as distâncias que teria de ultrapassar para poder ir mais além.
Dei comigo a fazer uma analogia com os humanos.
Afinal não somos assim tão diferentes do pardalito.
Senão vejamos:
- Tal como ele, estamos na infância espiritual;
- Tal como ele, olhamos o horizonte desconfiados, não acreditando que é possível atingi-lo;
- Tal como ele, demoramo-nos na baixeza dos instintos, deixando os altos voos para mais tarde;
- Tal como ele, só em último caso arriscamo-nos a encetar novos voos em busca de novos rumos existenciais, que nos permitam sobreviver;
- Tal como ele, desconhecemos que as leis de Deus, leis naturais, protegem-nos e fazem tudo para que tenhamos êxito na vida;
- Tal como ele, somos observados de perto por alguém, que deseja o nosso êxito, e não hesita em dar-nos a mão, assim nós precisemos;
Após breves meditações, dei por mim a pensar que, afinal sou mero pardalito da espiritualidade, saltitando de situação em situação na sociedade, no afã de aprender a solidariedade, a fraternidade, e a o amor ao próximo, como únicos caminhos seguros para a minha felicidade.
Tal como ele, o pardalito, também eu, um dia terei a coragem de voar sem saber bem para onde, na certeza de que a Vida nunca me abandona.
Tenho uma vantagem: o pardalito não sabe que a vida continua, e que todo o bem que façamos, reverte sempre em nosso benefício.
Um dia, o pardalito há-de descobrir isso, no decurso dos milénios, recordando a célebre frase depositada no túmulo de Allan Kardec, o insígne estudioso e codificador da Doutrina Espírita: “Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sem cessar, tal é a lei”. 

3 comentários:

Vi disse...

Divino! Muito inspirado, muito inspirador!

Anónimo disse...

Gostei muito. Está espectacular!

Este texto é uma forma muito inspirada, muito inteligente, muito bela e muito eficaz de falar sobre o nosso estado, enquanto espíritos terrestres.

Embora alguns pardalitos já tenham iniciado o voo, mesmo com as asas cortadas pelo vida no corpo de carne, ajudando os outros a ter coragem de voar, como é o caso do José Lucas.

Que sejamos todos capazes de interiorizar esta mensagem, começando por mim mesmo, é o meu desejo sincero. E que Deus nos continue a permitir ler aqui este tipo de mensagem.

Obrigado ao autor!

VS

Anónimo disse...

Excelente texto: muito inspirado e inspirador, mesmo :)

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