17.1.10

Os corruptos...



A quadra de Natal, sempre nos proporciona uma viagem até ao Norte de Portugal, no afã de visitar familiares, matar saudade, descansar um pouco, contar e ouvir novidades deste e daquele, enfim, oportunidade de conviver e confraternizar um pouco.

A determinada altura, a conversa derivou para a política, onde os actores políticos facilmente foram identificados com a corrupção e falta de honestidade, derivado do seu modus operandi desde o 25 de Abril de 1974. Como a época era festiva, optámos por mudar de tema, e lá fomos falando deste ou daquele. A páginas tantas, lá contei que o meu filhote de 9 anos de idade, tinha partido a TV de casa, sem querer, cujo arranjo orçava tanto ou mais que uma TV nova, pelo que estávamos a falar de modelos e preços de aparelhos de TV.
De repente, alguém me questionou se eu não tinha seguro multi-riscos, pelo que respondi afirmativamente, mas segundo a Seguradora, esse seguro somente cobriria o evento, se fosse noutro local, que não na própria habitação. De repente, qual génio iluminado, um dos meus interlocutores adiu: «Eh pá, já sei, declaras como sendo acidente de um filho de um amigo teu, ele declara ao seguro, e assim ficas com um aparelho LCD de TV, novo, e gratuito.»
Confesso que fiquei um pouco atónito, pois tal nunca me passara pela cabeça. Nos primeiros segundos, a ideia ainda bailou na cabeça, mas depressa os valores ético-morais que aprendi com a Doutrina Espírita, se sobrepuseram. Lá respondi que essa solução não era honesta, pelo que me retorquiram que as Seguradoras também não são honestas, e como tal merecem uma desonestidade de vez em quando. Confesso que a ideia até soou bem, mas… os valores ético-morais falaram mais alto. Lá opinei que por os outros serem desonestos, não significa que nós também o sejamos, e fui expondo a minha teoria, hoje em dia muito fora de moda, a de que devemos primar pela honestidade, pelos valores ético-morais, sob pena de perdermos o nosso próprio horizonte existencial.

Fazer ao próximo o que desejamos para nós próprios
 
Parecia que estavam a olhar para um extra-terrestre. “Ele não deve regular bem, coitado” ou então “Este gajo em que mundo anda?”, pareceu-me adivinhar-lhes o pensamento.
E lá mudámos outra vez de assunto…
Fiquei a pensar que o problema da humanidade encerra precisamente numa mudança de estratégia.
Qualquer empresa, ao fim de um ano de actividade, faz um balanço, e se a estratégia adoptada não foi eficaz, rapidamente opta por outra, em busca dos seus fins, a fim de não abrir falência.
Nós, humanidade, sempre optámos pela estratégia do egoísmo, do ódio, da maldade, por isso temos sofrido os horrores da guerra, da fome, da miséria material e moral, ao longo da existência humana.
Há cerca de dois mil anos, Jesus de Nazaré, o grande psicoterapeuta da humanidade (no dizer do Espírito Joanna de Ângelis), veio trazer-nos uma estratégia para a felicidade, que passa essencialmente, por fazer ao próximo o que desejamos para nós próprios, e não fazer ao próximo o que não desejamos para nós próprios.
E nós, humanidade, estupidamente, vamos a caminho da falência, investindo na estratégia que já deu provas que não nos serve: a do egoísmo.
Até quando?
Ah, por falar em corruptos, confesso que, apesar de ficar com a carteira mais vazia com o novo aparelho de TV, durmo bem melhor, com a satisfação interior de não ter atalhado pela porta larga…

Bibliografia:
Kardec, Allan – O Evangelho Segundo o Espiritismo
artigosespiritaslucas.blogspot.com

1 comentários:

VS disse...

Olá

Este artigo dos corruptos tem uma grande qualidade. Reconheço-lhe traços da inteligência e da bondade de Jesus, dos espíritos que ditaram a codificação e de Kardec.

Também concordo que nós nada temos a julgar moralmente outrem. A lição do artigo do José Lucas ensina-nos também a não fazer o mesmo que reprovamos nas outras pessoas. Melhores conselhos não podiam ser.

Mas nós espiritas, que tão bem aprendemos a usar os meios tecnológicos, como ensina a lei de caridade, temos também de dar voz aqueles mais fraquinhos que não a têm, como os idosos.

Mas cuidado! Dar voz a quem não a tem, não é dar voz a nós mesmos. O que interessa são os resultados. Se temos razão ou não, isso não interessa para nada.

Deus deu-nos um património de valor incalculável: a doutrina de Jesus e a doutrina de Allan Kardec. Há mais obras escritas de qualidade, mas será que nos devemos dispersar?
ou mais vale estudar Kardec, que é seguro e que, no que interessa, ou seja nos assuntos do âmbito da moral e na forma de nos ensinar a viver, está mais que actualizado?

Se todo o espirita apenas compreender kardec, poderá ser culturalmente pobre, mas o movimento espirita será muito melhor do que é hoje. Se tivermos vontade, Deus não nos desamparará. E receberemos um dia em cêntuplo o salário de ter trabalhado na seara do nosso pai.

Se eu tivesse sido sempre muito bem sucedido na vida material, eu não seria o homem que sou hoje. Nada teria aprendido. Agradeço por isso a Deus e aqueles, que, sem o suspeitar, tanto me têm auxiliado, provocando-me contrariedades. É percebendo isso que estamos aptos a perdoar. Transformamos o ressentimento num sentimento de gratidão.

Se a vida não fosse dura e difícil, como desenvolvíamos a inteligência (pobres daqueles a quem a vida é fácil demais)? Como seriamos capazes de ser caridosos se não nos enxergamos e compreendemos que nada somos neste "inferno" que é a terra. Se não descemos do "altar" do orgulho? Se pensarmos que na nossa vida não precisamos do amparo daquele a quem tudo devemos?

Mas não é tudo mau. Se soubermos viver, mereceremos um futuro mais feliz. Depois da tempestade virá a bonança.

E nós iludidos, começando pelos nossos pobres jovens. Pensamos que isto aqui é um paraíso. Mais ou menos felizes (se vencermos os nossos defeitos seremos sempre mais felizes, estou certo), Deus mandou-nos para aqui para a luta. O descanso ainda não é nesta vida.

Ouçam o amigo José Lucas. Como todos terá as suas dificuldades, mas tem uma grande lucidez e inteligência. Não se deixa iludir facilmente.

Aproveito para agradecer a Deus e a todos os irmãos espiritas, que tanto me têm ajudado.

um adepto da causa espirita

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