20.1.10

Era bom que fosse verdade...


A notícia caíra abruptamente, qual raio fulminante: o primo falecera, repentinamente e na flor da idade. Foi como um soco no estômago, que num reflexo psicossomático pareceu encolher, causando mal-estar e náuseas.

Assim nos confidenciava pessoa amiga, acerca da morte de um familiar.
Notava-se-lhe o desencanto com a vida, a revolta contra Deus, a mágoa por esta partida que a vida lhe pregara, sem prévio aviso. O seu aspecto facial não deixava margem para dúvidas: a dor, o desespero, a mágoa, a impotência, estavam ali patenteadas sem qualquer margem para dúvidas.
No meio de um abraço amigo, que em silêncio diz coisas mil, o choro rebentou qual dique a necessitar de ser vazado.
Depois da catarse, conversamos longamente acerca da vida, da imortalidade da alma. O meu interlocutor referiu o seu cepticismo acerca do céu, inferno e purgatório tão prometido aos crentes católicos.
Abordamos calmamente a lógica da existência de Deus, falamos da imortalidade do espírito, da comunicabilidade dos espíritos, da reencarnação onde cada um colhe de acordo com o que semeou em vidas passadas, falamos ainda da pluralidade dos mundos habitados.
Referimos as inúmeras experiências científicas levadas a cabo desde meados do século XIX até aos dias de hoje, onde conceituados cientistas pesquisaram e pesquisam as manifestações espíritas, demonstrando-as, evidenciando-as, mesmo que com outra nomenclatura, próprio de quem não quer ser identificado com esta ou aquela corrente filosófica.
Conversamos sobre experiências pessoais e grupais, onde a imortalidade do ser se patenteia a cada dia, e aos poucos o nosso amigo ia serenando. O desespero deu lugar à curiosidade, as perguntas cederam lugar ao choro, a dialéctica em torno do assunto ia comendo os minutos à guisa de alguém esfomeado perante suculento prato bem confeccionado.
O nosso amigo já ouvira falar de Espiritismo (ou Doutrina Espírita) mas julgava-a mais uma religião, como as demais, procurando prosélitos a todo o custo. Somente agora, com novo esclarecimento, os seus horizontes se alargaram. O cepticismo baseado na crença cega dera lugar à dúvida raciocinada.
Ficou prometida uma visita ao Centro de Cultura Espírita, nas Caldas da Rainha (http://www.ccespirita.org/) para poder melhor avaliar o que a doutrina espírita tem para oferecer ao ser humano. Emprestamos-lhe «O Livro dos Espíritos» essa obra fenomenal de filosofia, com 1019 perguntas e repostas, que se afigura qual fonte cristalina perante o viajante da vida, sedento de matar a sede. Ficou a promessa da leitura crítica desta obra de Allan Kardec. Perante os múltiplos afazeres da vida, acabamos por nos esquecer de tal episódio, até que um dia vimos o nosso amigo numa das conferências semanais que este Centro Espírita proporciona todas as sextas-feiras à população.
Terminada a conferência, que curiosamente tinha sido subordinada ao tema «A vida para além da morte», o nosso amigo, num nervoso miudinho, pediu-nos uns 5 minutos de conversa, que rapidamente se transformaram em mais de uma hora de amena cavaqueira, onde as questões choviam em catadupa.
Propusemos-lhe que estudasse espiritismo, que lesse, que frequentasse caso desejasse as conferências espíritas, mas que fosse crítico, aceitando apenas o que a sua razão sancionasse. Quando nos abraçamos, despedindo-nos devido ao avanço inexorável das horas, notava-se-lhe no semblante um ar sereno, tranquilo.
Antes de partir, e relembrando o seu familiar recentemente falecido, teve tempo para dizer: «Era bom que fosse verdade…», no seu anseio de imortalidade, comum a toda a humanidade, abrindo-se-lhe assim uma porta de esperança para que um dia pudesse reencontrar o familiar querido.
Ficamos a pensar no papel do Centro Espírita na sociedade contemporânea: esclarecer e consolar, e não pudemos deixar de sentir uma enorme gratidão pela espiritualidade que a todos acompanha diariamente, bem como nas imensas provas da imortalidade do ser que diariamente acontecem em todos os centros espíritas do mundo, como que a alertar a humanidade para a vacuidade dos seus anseios materialistas, perante a inevitabilidade da sua morte corporal e imortalidade espiritual.

Bibliografia:
Kardec, Allan, «O Livro dos Espíritos»;

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