7.12.09

O "eterno" descanso...




O dia figurava-se como outro qualquer, na rotina habitual.
No entanto, aquele dia era especial para mim, pois uma pessoa amiga acabava de largar o corpo de carne, pelo fenómeno natural da morte do corpo físico. Aquilo a que vulgarmente se chama de morte, nós espíritas apelidamos de desencarnação (isto é, a acção de largar definitivamente o corpo de carne).
Esse meu amigo acabara de desencarnar, após doença incurável.
Os trâmites habituais desenrolaram-se, num ritual que acaba por ser sempre triste, tendo em conta que é uma separação (para uns temporária, para outros que não acreditam na imortalidade da alma, definitiva) um pouco dolorosa.
Num desses momentos, no meio de uma conversa com este ou aquele presente no evento fúnebre, não pudemos deixar de ser levados a profundas reflexões acerca da vida.
Olhávamos para o cemitério e no meio do luto ainda habitual, de acordo com a cultura ocidental, podíamos contemplar a natureza verdejante em volta do local fúnebre, um ou outro pardalito que saltitavam nas imediações com os seus chilreios inocentes, aquela flor silvestre, lilás, a florzinha esbranquiçada, todos eles como que a darem à humanidade uma lição simples mas fortíssima de imortalidade da vida. Era um convite à vida, um hino à vitalidade, à imortalidade, cantados no chilrear dos pássaros ou no ondular das flores, tocadas pela brisa, que por ali se viam. O céu, azul, o sol brilhante, como que completavam aquele cenário cheio de vida que para nós terrenos era perfeitamente inabordável tendo em conta o pensamento direccionado para o evento difícil.

A Doutrina Espírita, demonstrando a imortalidade da alma, mostra-nos que a vida continua noutros planos vibratórios, onde o espírito continua
a sua evolução, até que volte em nova reencarnação

Pudemos pensar na riqueza que a humanidade tem como tesouro incalculável, a Doutrina dos Espíritos, que apareceu há cerca de 153 anos pelas mãos de inúmeros médiuns anónimos e que foi sabiamente coligida pelo respeitado discípulo de Pestallozi, Allan Kardec, demonstrando experimentalmente a imortalidade da alma.
Nestas alturas em que a humanidade como que é relembrada do seu trajecto transitório na superfície terrestre e de como são perfeitamente estúpidas e inúteis as querelas que nos dificultam a vida, sentimo-nos pequenos, quase insignificantes, para mais logo sentir de novo o fulgor da vida com a mente direccionada para Deus, o criador do universo, e para as múltiplas existências físicas (reencarnação), a imortalidade, a comunicabilidade dos espíritos, como ideias lógicas, irrefutáveis, demonstráveis, a orientarem-nos o horizonte como portas de luz, sabedoria e felicidade, no porvir.
De repente pudemos ouvir o religioso que acompanhava o serviço fúnebre a pedir para o meu amigo o «eterno descanso».
Bem sei que não o fez por mal, mas pus-me cá a pensar com os meus botões: «Deus nos livre do eterno descanso, dai-nos antes o eterno trabalho», para podermos evoluir, crescer como Espíritos, para que mais rapidamente atinjamos o estado de Espírito puro.
A Doutrina Espírita (ou Espiritismo) demonstrando a imortalidade da alma, o que actualmente vai sendo confirmado pela ciência, nomeadamente pela psicologia e psiquiatria, mostra-nos que a vida continua noutros planos vibratórios, onde o espírito continua a sua evolução, encontrando pessoas queridas ou não, aprendendo sempre, criando condições para voltar em nova reencarnação, sempre em busca da evolução, do seu bem-estar, tal como o aluno busca após as férias escolares nova aprendizagem, em novo ano lectivo, para que assim possa mais tarde terminar os seus estudos.
Pus-me a meditar em torno do eterno descanso: se na Terra quando estamos um mês ou dois sem trabalho ficamos deprimidos, sentimo-nos inúteis, como seria com o eterno descanso? Seria um inferno, sem solução...

«Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sem cessar, tal é a lei»

Pus-me a meditar na riqueza que a humanidade possui no seu arquivo cultural (a cultura espírita) e de como ela é ainda trocada pelos rituais muitas vezes seguidos mecanicamente nos quais fomos educados.

Pus-me a meditar em como será tão bom para a sociedade quando ela se começar a interessar mais pela sua espiritualidade, procurar novas respostas, pesquisar, experimentar, concluindo de per si, uma vivência que nos abre o caminho da vida espiritual.
Pude meditar acerca do meu amigo, e saí feliz do cemitério, enviando-lhe um pensamento de alegria, de ânimo, de coragem para a nova vida, pois afinal, ele além de ser boa pessoa, de ter criado os seus filhos, de ter sido um bom cidadão, cumpriu com estoicismo a tarefa que Deus lhe confiou nesta reencarnação, voltando assim com êxito à pátria espiritual.
Sem qualquer tipo de crítica, nem falta de respeito pelas opiniões alheias (aliás conheço religiosos muito espiritualizados e autênticos exemplos de humanidade), pude respirar de alívio por saber, pela experiência que o estudo da doutrina espírita nos confere, que afinal o meu amigo não irá ter o «eterno descanso» mas sim... novas oportunidades evolutivas sempre em busca da felicidade!
Força amigo, um dia encontrar-nos-emos!

0 comentários:

Enviar um comentário