8.12.09

Bruxo por um dia


Para quem não conhece o espiritismo é fácil confundi-lo com práticas estranhas e absurdas. Para quem o conhece, absurdo é confundi-lo com essas mesmas práticas. Venha ver connosco um caso curioso que nos mostra como a informação é importante para a vida das pessoas.

O dia era normal como um outro qualquer. Tínhamos sido convidados para um programa na rádio abordando o espiritismo ou doutrina dos espíritos, numa cidade a sul do Tejo. A expectativa era grande, pois estavam a fazer publicidade em spots radiofónicos frequentes, com o objectivo de aumentar a audiência. Aceitámos o convite, já que o espiritismo, nos seus aspectos científico, filosófico e ético/moral, afigura-se-nos como a doutrina mais completa que conhecemos, a nível de informação holística sobre a vida, mostrando-a em todos os seus matizes, seja deste lado da existência seja no mundo espiritual. Daí a vontade e a alegria de falar sobre estes assuntos, ao verificar da sede de saber, de conhecimento, que as pessoas têm de um modo geral, acerca deste tipo de matérias, como a vida para além da morte e as relações existentes entre o mundo espiritual e o mundo corporal.
O programa era de grande audiência pois um dos locutores é bastante conhecido no panorama radiofónico nacional. A outra locutora era desconhecida e estava bastante receosa (segundo informação do seu colega de realização) acerca do assunto e da pessoa que viria falar de espiritismo. Quem seria ela? Como apareceria? Como correria o programa? Que perguntas teria de lhe fazer? Enfim um rol de questões que se lhe colocavam perante uma actividade inédita para ela, neste caso em pauta.

Falámos da imortalidade da alma, tantas vezes cantada pelas religiões
mas nunca provada, até ao momento em que o espiritismo aparece
em 1857, provando experimentalmente a imortalidade do ser

Chegámos, fomos recebidos com cortesia e simpatia e não pudemos deixar de sorrir quando amigavelmente o nosso amigo locutor nos informa com um sorriso nos lábios que na rádio havia um certo frenesim, onde inclusive a directora da mesma já tinha perguntado várias vezes pelo bruxo, se ele já tinha chegado. Rimos a valer com tal expressão, sabendo das confusões que geralmente as pessoas fazem. Como o tema ia ser «O espiritismo» as pessoas que o desconheciam, pensavam que iria aparecer um bruxo, especial, com certos paramentos ou roupas esquisitas e com um ar superior. Quando viram que o «bruxo» esperado era apenas um ser humano normal houve de momento uma pequena desilusão seguida de um sentimento de espanto e de alegria: afinal os espíritas são gente normal, gente como eles, pessoas que sentem, riem, choram. Rimos com a situação, e esta pequena história pitoresca não deixou de ser um rico ingrediente para a entrevista que se seguiria.
Começámos a entrevista radiofónica e as perguntas sucediam-se a tal ritmo, os telefonemas surgiam em catadupa que a hora reservada ao evento pareceu encolher para quinze minutos. Falámos da imortalidade da alma, tantas vezes cantada pelas religiões mas nunca provada, até ao momento em que o espiritismo aparece em 1857, provando experimentalmente a imortalidade do ser. Falámos da comunicabilidade dos Espíritos, da esperança que a vida encerra, das provas dessa comunicabilidade, falámos da reencarnação e de como a moderna psiquiatria está a descobri-la em laboratório, da pluralidade dos mundos habitados e da existência de Deus. Falou-se ainda da mediunidade ou percepção extrasensorial que vai aparecendo um pouco por todo o lado como que a chamar o homem para novas realidades que terá de valorizar. Pessoas que telefonavam colocaram as suas questões e experiências próprias e ficou no ar uma sede enorme de saber que é preciso saciar.

O espiritismo ou doutrina espírita, que é algo de muito sério,
um movimento cultural muito amplo e que só a má fé ou desconhecimento
pode emparelhá-lo com a superstição, crendice e quejandos.

A jornalista inicialmente receosa com o tema e com o «bruxo», estava desejosa de continuar com a entrevista mas o tempo estava a finalizar. Ficou a promessa de novos programas em novos moldes, quiçá sob a forma de debate público, aproveitámos o ensejo para oferecer um exemplar da obra magistral de Allan Kardec «O Livro dos Espíritos» e afinal tinha terminado o meu reinado de «bruxo» por um dia.
Pudemos constatar que entre o público ficou a ideia real do que é o espiritismo ou doutrina espírita, que é algo de muito sério, um movimento cultural muito amplo e que só a má fé ou desconhecimento pode emparelhá-lo com a superstição, crendice e quejandos.
Ficou bem esclarecido que o espiritismo nada tem a ver com anúncios em jornais prometendo a cura de tudo e mais alguma coisa a troco de dinheiro, e que quem assim se afirma espírita, no jornal, prometendo curas e soluções de todos os problemas, não é espírita e como tal é charlatão ao afirmar-se como tal.
Terminado o evento pude regressar a Caldas da Rainha, tinha terminado o meu curto reinado de «bruxo» na mente daquelas pessoas e tinha voltado à condição normal de ser humano, igual aos demais, com um emprego, com família, com alegrias e tristezas, mas com uma diferença: a de gostar de estudar, praticar e divulgar, sempre gratuitamente, a doutrina espírita como uma ideia altamente consoladora que ajuda-nos a entender a vida e que nos diz quem somos, de onde vimos e para onde vamos.

Bibliografia:
«O Livro dos Espíritos», Allan Kardec;
Sítio na Internet: www.adeportugal.org

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